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  • Divórcio em Buda

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    Talvez? Não seria médico, se não conseguisse salvá-la. Era um caso de escola... ensina-se em todo o lado, um desses casos em que, efectivamente, sabemos qualquer coisa, sabemos ajudar. Largo a seringa, sento-me a seu lado, tomo-lhe o pulso, olho-a. Com um lenço limpo a espuma dos lábios. Olho-a longamente. Nesse transe, sei que nada farei para salvar Anna. Escolheu aquele caminho, já está longe o mais difícil, deu o primeiro passo. Não dá conta de mais nada. Foi com passo leve que pôde, como num sonho - num sonho, de facto, no sentido próprio do termo -, passar da vida à morte. Está flutuando na inconsciência, um pouco assim como viveu... Não poderia ter partido de forma mais bela... Seguro-lhe a mão, o pulso está cada vez mais fraco, mais irregular, mais cansado. É um ritmo estranho. Já sei que não vou telefonar à ambulância.

    Divórcio Em Buda, de Sándor Márai, o húngaro que escreveu As Velas Ardem Até ao Fim. Ficamos a amar ainda mais a literatura quando acabamos de ler um livro como este.
     

  • Maria Teresa Horta

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    Diz-me que Poesia Reunida é a história da sua vida. Peço-lhe para escolher um poema e ela elege Ponto de Honra. Sugere que eu escolha os outros. Tarefa difícil, pois Maria Teresa Horta escreve divinalmente. Vale a pena lê-los, são belíssimos.

    PONTO DE HONRA

    Desassossego a paixão
    espaço aberto nos meus braços
    Insubordino o amor
    desobedeço e desfaço

    Desacerto o meu limite
    incendeio o tempo todo
    Vou traçando o feminino
    tomo rasgo e desatino

    Contrario o meu destino
    digo oposto do que ouço

    Evito o que me ensinaram
    invento troco disponho
    Recuso ser meu avesso
    matando aquilo que sonho

    Salto ao eixo da quimera
    saio voando no gosto

    Sou bruxa
    Sou feiticeira
    Sou poetisa e desato

    Escrevo
    e cuspo na fogueira

    Ver mais: http://www.portaldaliteratura.com/cronicas.php?id=53

    Poemas retirados do livro Poesia Reunida, da Dom Quixote

  • Não fazem a ponta de um corno

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    Ele alto e curvado, ela baixinha mas muito direita. Ambos gastos pela idade, sentados no café em amena cavaqueira. Falavam alto, toda a gente os ouvia sorrindo.

    Ela: «Diz aqui que os combustíveis vão voltar a aumentar.»
    Ele: «Se fossem só os combustíveis... Sobe tudo, tudo, tudo... menos as reformas, é claro.»
    Ela: «É a crise...»
    Ele: «É a pouca vergonha, isso sim.»
    Ela: «Diz aqui que os políticos acumulam reformas e que há... que raio de palavra... des-pe-sismo no Estado. Sabes o que é des-pe-sis-mo, António?»
    Ele: «Olha, onde se lê despesismo, faz o favor de ler “roubar à fartazana”... Só lhes falta mesmo é roubar carteiras no Rossio!»
    Ela: «Também não precisas de exagerar... Vê aqui António, vê aqui como eram os bigodes dos republicanos há cem anos.»
    Ele: «Mostra lá, mostra lá... Ah, antes ainda se escondiam atrás dos bigodes, agora é à descarada... Isto não tem concerto, toda a gente já percebeu, menos eles.»
    Ela: «Se o FMI vem por aí adentro, aí é que a porca torce o rabo.»
    Ele: «Se for para lhes torcer o rabo e bem torcidinho, que venham hoje ainda.»
    Ela: «Cala-te com isso, António.»
    Ele: «Calar? Era o que faltava... Malandros, uns grandes malandros é o que eles são... Não fazem a ponta de um corno.»
    Ela: «Cala-te com isso, homem.»
    Ele: «Olha mas é para a página do desporto e vê se há notícias do Benfica.»

  • Mario Vargas Llosa

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    O Prémio Nobel da Literatura de 2010 acaba de ser atribuído ao escritor Mario Vargas Llosa. Folgo muito com a notícia, como também folgaria se a Academia Sueca o tivesse atribuído ao grande Milan Kundera.

    Mas voltando ao primeiro, que acaba de arrecadar um milhão de euros de prémio, dou comigo a recordar livros fabulosos como A Casa Verde, Conversa na Catedral, Tia Júlia e o Escrevinhador, e tantos outros romances e ensaios. Recentemente li Travessuras da Menina Má, que é uma obra deliciosa.

    Está de parabéns Vargas, um dos expoentes da literatura latino-americana, e também a Língua Espanhola, que há largos anos andava arredada destas distinções!

  • O Dia Dos Prodígios

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    Continua a haver muito para dizer à volta desse fabuloso acontecimento literário que foi o lançamento de O Dia dos Prodígios. Foi o romance de estreia de Lídia Jorge, há exactamente trinta anos. Uma história do Portugal profundo antes do 25 de Abril, cheia de gente que nos surpreende, como o Pássaro Volante ou a Esperancinha, como a Branca ou a Carminho, mas também cheia de cultos e preconceitos, de amores e desamores e até mesmo de uma serpente que voa!

    Fui ao Trindade, este último sábado, e confesso que saí maravilhado. Cucha Carvalheiro fez a adaptação para o teatro de O Dia dos Prodígios e fê-la exemplarmente. Cenário bem montado e um texto excelente e bem-humorado... Mas onde a peça brilha mesmo é no trabalho dos actores. Simplesmente magnífico.  

  • O Preço da Fama

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    Uma maioria das pessoas associa a fama ao supremo estatuto da felicidade. Pura ilusão.

    O trabalho foi, durante séculos, o pai da fama mas já não é. De pouco valerá dizer que ganhar fama é perder a privacidade e a liberdade de se fazer o que se quer sem dar cavaco a quem quer que seja. Ser famoso é também, tantas e tantas vezes, ter de suportar vis mentiras e boatos. De resto são conhecidas muitas histórias de figuras públicas que raramente passam as férias em Portugal. Por uma razão simples: a de poderem conquistar durante umas semanas a liberdade das pessoas comuns.

    Mas há quem não se convença, quem não desista dos holofotes e de desfilar num tapete vermelho. Sem olhar a meios, o mais importante é conquistar uns minutinhos de glória. E porque não sou santo, longe disso, vejo e vejo-me a rir. Mas nem sempre, há loucuras que me fazem pensar.

    Vivemos um tempo em que tudo parece valer, a palavra limite deixou de existir.


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