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  • A Virgem dos Sicários

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    «Por isso aqui, neste país de leis e constituições, democrático, ninguém é culpado até ser condenado, e não o condenam se não for julgado, e não o julgam se não o apanharem, e se o apanham soltam-no... A lei da Colômbia é a impunidade e o nosso primeiro delinquente impune é o presidente, que a estas horas deve andar na estroinice delapidando o país e o cargo. Onde? No Japão, no México... No México, a tirar um cursozeco.»

    A Virgem dos Sicários, de Fernando Vallejo, Teorema

  • Lídia Jorge - A Noite das Mulheres Cantoras

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    Acabei de ler no fim-de-semana o último livro de Lídia Jorge, A Noite das Mulheres Cantoras. Não sendo crítico literário, longe disso, bastar-me-ia esta obra para me tornar um fã indefectível da autora.

    Lídia Jorge, possuidora de um invulgar talento narrativo, tem o mérito quase único de cavar personagens com alma, de transformar ficções em histórias que parecem reais, de forçar os leitores a entrarem na cabeça das personagens. O que me aconteceu, à semelhança de outras grandes obras como A Costa dos Murmúrios, O Vento Assobiando nas GruasO Dia dos Prodígios, Combateremos a Sombra, e tantas outras, o que me aconteceu, dizia, foi chegar à última página com um estranho sentido de perda: o de não poder continuar a ouvir Solange de Matos, a narradora da história, Gisela Batista, a maestrina do grupo, João de Lucena, o coreógrafo, as irmãs Alcides ou a fabulosa e intrigante Madalena Micaia, a personagem que nos liga a África.   

    «Queremos encantar. Queremos vencer encantando, seduzindo. Tão simples quanto isto, não to escondemos. Queremos encantar pessoas, milhares, milhões de pessoas. Queremos ser maiores do que cada uma delas e do que todas no seu conjunto, queremos ter uma habilidade que elas não têm. Queremos entrar-lhes pelos ouvidos, pelos olhos, pelos nervos, pelo corpo todo. Entendes? Por isso, elas vão ficar paradas, à espera, e nós na sua frente, seduzindo-as, colando-as aos seus lugares, hipnotizando-as, desvairando-as com o nosso talento. Plateias, salas inteiras, recintos completos de gente submetida por encantamento à nossa música. Queremos o mundo. Queremos fazer amor com o mundo, entregando-lhe a nossa música e recebendo em troca tudo o que o mundo tem para nos dar. Só isso.»

    Idolatria, endeusamento, temas a que Lídia Jorge recorre para mostrar o que faz agir o ser humano.

    «Cantámos tão bem, a execução correu tão fluida nessa tarde, com as árvores do Inverno a agitarem os braços despidos rente aos vidros, e o chá de Gisela, o café de Gisela, os biscoitos de Gisela souberam tão bem durante as pausas, que eu compreendi que o céu poderia ser alcançado através de veredas que atravessassem campos onde as árvores, sozinhas, caminhassem falando.»

    Para além de ter essa coisa mágica que é a de saber colocar as palavras certas no sítio certo, Lídia Jorge leva-nos a percorrer não apenas a história contemporânea portuguesa das duas últimas décadas, mas as suas raízes. Ler A Noite das Mulheres Cantoras, é entrar no Reino da Música e das sensações, é entrar na psique humana das Giselas, das belas Giselas, fortes e conhecedoras, da autoridade dos Simons, dos grandes Simons, das teias cruéis das relações humanas, das traições para sobreviver, do acordar para o amor.

    A obra de Lídia Jorge é muito mais do que uma história bem contada, muito mais do que uma boa surpresa... Bela narrativa, grande literatura, um livro que ninguém pode deixar de ler.

  • Assobio Rebelde - Geração à rasca

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    Por norma não costumo divulgar as ideias de pensadores conhecidos. Por uma razão muito simples: elas circulam na Internet.

    Mas as ideias sobre o tema «Geração à rasca» são tão profundas e elucidativas (vidé blog com o mesmo nome), que é uma pena não lê-las. Vale a pena ler e reflectir.

    Mia Couto - Geração à Rasca - A Nossa Culpa

    "Um dia, isto tinha de acontecer.
    Existe uma geração à rasca?
    Existe mais do que uma! Certamente!
    Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa
    abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes
    as agruras da vida.
    Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar
    com frustrações.
    A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também
    estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
    Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância
    e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus
    jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
     
    Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a
    minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos)
    vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós
    1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
    Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram
    nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles
    a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes
    deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de
    diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível
    cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as
    expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou
    presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
    Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o
    melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas
    vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não
    havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado
    com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
     
    Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A
    vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
     
    Foi então que os pais ficaram à rasca.
    Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem
    Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde
    não se entra à borla nem se consome fiado.
    Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar
    a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de
    aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a
    pais.
    São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e
    da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que
    os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade,
    nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
     
    São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter
    de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e
    que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm
    direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas,
    porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem,
    querem o que já ninguém lhes pode dar!
     
    A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo
    menos duas décadas.
     
    Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
    Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por
    escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na
    proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que
    o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois
    correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade
    operacional.
    Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em
    sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso
    signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas
    competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
    Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por
    não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração
    que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que
    queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a
    diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que
    este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
    Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo
    como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as
    foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
    Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não
    lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
    Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
     
    Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de
    montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o
    desespero alheio.
     
    Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e
    inteligência nesta geração?
    Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
    Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no
    retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e
    nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como
    todos nós).
    Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados
    pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham
    bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados
    académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos
    que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e,
    oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a
    subir na vida.
     
    E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos
    nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares
    a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no
    que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida
    e indevidamente?!!!
     
    Novos e velhos, todos estamos à rasca.
    Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
    Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme
    convicção de que a culpa não é deles.
    A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem
    fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e
    a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
    Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
    Haverá mais triste prova do nosso falhanço?   

  • Dia da Mulher

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    Pode parecer puro lisonjeio, pode parecer que sou lamecha, pode parecer até outra coisa qualquer, pouco me importa, o que quero mesmo –  no dia em que se assinala pela centésima vez o Dia da Mulher –, é manifestar o apreço e gratidão às mulheres, a todas sem excepção, quer se trate da mulher que me deu a vida, quer se trate da minha própria filha, das minhas irmãs, das mulheres que conheço e adoro, das minhas amigas que muito prezo, das mulheres que mal conheço e que gostaria de conhecer melhor, das mulheres que não conheço e que provavelmente nunca conhecerei, das mulheres que em todos os cantos semeiam amor e afeição tornando o mundo melhor. 

  • E venha depressa o 2011!

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    2010 foi um ano implacável que nos fez tremer e suar em bico! Deu para rir, chorar e deu para pensar.

    A poucas horas do novo ano e em jeito de despedida, gostaria de desejar a todos os que conheço e não conheço e a todos os amigos, um Ano Novo com menos tempestades e mais alegrias. Um ano com menos incertezas, com menos crises, com menos ódios, com menos ganâncias, com menos escândalos, com menos catástrofes naturais, com menos meteóricas acumulações de riqueza e menos sacos azuis, com menos reformas milionárias, e já agora com menos bla-bla-bla!

    Gostaria muito de desejar a todos um Ano Novo com saúde, com mais harmonia, com mais alegria, com boas realizações, um ano em que haja mais humanidade, mais tolerância, mais ética, mais respeito uns pelos outros.

    Boa sorte!

  • Acupunctura a Portugal

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    Uma dor no ombro ligeiramente incomodativa, primeiro, uma outra quase incapacitante, depois. A vida ensina-nos que para ficarmos empenados não é preciso muito! Voltando ao meu ombro, pois é dele que falo, comecei a vê-lo enrijecer e a certa altura o danado disse-me mesmo que declararia greve por tempo indeterminado, se eu continuasse horas e horas agarrado ao computador. «Para já, contenta-te com uma tendinite», disse-me, com muito maus modos. Daí à fisioterapia foi um passo, daí à acupunctura foi outro imediatamente a seguir.

    E foi a olhar para o tecto com agulhas espetadas da palma da mão à omoplata, que acabei por adormecer e sonhar que Portugal, mesmo ao lado de mim, também fora submetido a uma sessão de acupunctura! E eram tantas as agulhas... Agulhas e agulhas nos Partidos que têm sido poder e que põem o poder à frente da política; agulhas nos Partidos da oposição; agulhas profundas na Educação, na Justiça, na Agricultura que mal se vê, na nossa pobre e moribunda Indústria, nas Pescas, numa boa parte das Autarquias; agulhas na tenebrosa espuma das reformas milionárias. Numa palavra, caixas e caixas de agulhas para tratar de um país em carne viva.

    Da próxima vez coloco umas palas nos olhos para não voltar a adormecer!


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