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  • O Mundo de Avesso

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    Se é daqueles que gosta das rotinas com tudo arrumadinho e feito nos prazos e na ordem a que se habituou ao longo dos anos, se é daqueles que se dá mal com mudanças imprevistas, se é daqueles que ainda não se deu conta do que está a acontecer, apresse o passo pois o mundo está a mudar rápida e perigosamente. Na dança das novidades tudo pode acontecer: campanha especulativa de ataque ao euro, bolsas em pânico, PECs atrás de PECs, catástrofes ambientais, cinzas vulcânicas sobre a Europa, políticos aos gritos ou a desembainhar as espadas, um regabofe que parece não ter fim.

    Na área em que trabalho – comunicação e internet – o mundo também se pôs de avesso: jornais que não se vendem, índices de audiência televisiva em queda, internautas a fazerem de jornalistas, jornalistas a fazerem de assessores de imprensa, e o diabo a quatro! Ouve-se falar no Facebook de manhã à noite, já houve quem dissesse que se Jesus Cristo fosse vivo andaria a pregar na rede social mais vista no planeta!

    E o que dizer sobre os maus tratos da língua que falamos e escrevemos? Vê-se meio mundo a trocar o "qu" pelo "k" e o "ch" pelo "x", como se fosse uma moda literária! Se os pontapés no Camões fossem só esses... Pobre língua, também ela a ser virada de avesso!

    Acordamos e perguntamos: o que é que vai acontecer hoje?

  • Olhos Mil

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    Semana agitadíssima: para seis milhões de benfiquistas (ou serão sete?) é a catarse tão esperada, para milhões de fiéis a visita tão ansiada do Papa, para milhões de cidadãos é o fado de saber que mais medidas anticrise vêm a caminho. 

    Enchi-me de coragem, caducado que estava o meu Bilhete de Identidade, e fui tratar do Cartão do Cidadão, documento que substitui o velho BI e os cartões de beneficiário da Segurança Social, de Utente de Saúde e de Contribuinte. Quatro em um!

    Confesso que fiquei agradavelmente surpreendido com o atendimento e com o pouco tempo que perdi para resolver o assunto. Esqueci-me do Cartão de Utente mas o sistema conhecia o número; esqueci-me do número de Contribuinte mas o sistema sabia qual era; esqueci-me dos três últimos números do código postal da minha actual morada, mas o sistema e a sua memória de elefante não me deixaram ficar mal.

    Na perspectiva de utente não podia ter corrido melhor. Na perspectiva de cidadão com direito à privacidade fiquei a cogitar na revolução digital a que assistimos e na forma como a sociedade nos desnuda. Os nossos passos são registados desde que nos levantamos até à hora em que nos deitamos. Se um dia o Estado, ou qualquer outra entidade privada, se puser a reunir e a cruzar a informação que vamos produzindo – e que é registada através de cartões de crédito, de código de barras, de cartões de fidelização, de câmaras de vídeo, da Internet, ou de muitos outros suportes, como o Facebook – pouco ou nada ficará por saber. E não é de escutas que estou a escrever!

    Há olhos por todo o lado, olhos que sabem quem somos, com quem andamos, que dinheiro temos, quanto gastamos, o que comemos, que uísque bebemos, por que estradas conduzimos, com quem trocamos mensagens, que preservativos utilizamos e com que periodicidade os adquirimos. Assustador!

    Em muitas cidades, por razões de segurança, proliferam as câmaras de vídeo. É o preço do desenvolvimento, dirão alguns, é o início de uma nova era com muito menos liberdade, dirão outros. E o que mais podemos imaginar neste louco mundo da revolução digital?

  • Gatos gordos (2)

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    Se é dos que pouco ou nada sabe sobre as Agências de Rating não desespere, pois há centenas de milhões de pessoas na mesma situação.

    Sabemos que há três agências – todas elas americanas –, sabemos que tecem comentários sobre o risco de um país ou de uma empresa suspender os pagamentos das suas dívidas, sabemos que sobem e descem ratings.

    É certo que Portugal não tem tido uma conduta exemplar de há pelo menos dez anos a esta parte. É verdade que o crescimento é medíocre, que o desemprego é muito elevado e que os grandes investimentos públicos fazem levantar um rol de interrogações. O que não se entende, nem há explicações que o permitam entender, é como é possível que as Agências alterem o posicionamento de um país em trinta ou quarenta lugares de uma só vez!

    Ninguém sabe muito bem que critérios utilizam, conhece-se apenas a simbologia feita de letras e sinais numéricos do tipo AA+ ou AAA que, não fosse o assunto tão sério, e seria motivo para nos rirmos. Vale a pena perguntar por onde andavam os crânios das Agências de Rating quando falharam escandalosamente a avaliação dos títulos ligados ao imobiliário, vale a pena perguntar porque nunca viram nada de estranho na teia montada por Madoff. Que são sanguessugas a quem Obama chamou gatos gordos, que perseguem interesses especulativos, que caucionam políticas e decidem o mundo já todos percebemos!

    Alguns estados norte-americanos avançaram já com processos judiciais contra estas Agências, às quais assacam responsabilidades pela crise internacional que se está a viver. O que dificilmente se entende é por que razão a União Europeia ainda não o fez.

  • Piropos

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    Foi no primeiro dia de sol desta primavera chuvosa. Atravessei o Jardim Amália Rodrigues, que fica a norte do Parque Eduardo VII, quando reparei nelas. Eram três raparigas, entre os vinte e os vinte e cinco anos, caminhavam à minha frente e no mesmo sentido que eu. Riam-se alegremente, aquele riso de ouro que faz com que os olhos se iluminem...

     

    Foi tudo muito rápido... No sentido inverso vinha um jovem bem-parecido e da mesma faixa etária. Uma das raparigas virou-se para trás e disse, num tom de brincadeira: «Ui, ui, ui, eu passava a mãozinha naquele rabinho!» Tal e qual... Deu-me gosto vê-los: elas a olharem para trás num ambiente de pura folia e ele a rir-se envergonhado, mas sem se atrever a virar.

     

    Também eu sorri. Mudam-se os tempos, mudam-se as ideias, alteram-se os comportamentos. Nunca fui de mandar piropos (era demasiado envergonhado para isso), mas lembro-me de os ouvir em adolescente, e mais adiante, e de lhes achar piada, quando na verdade tinham graça. Refiro-me naturalmente a piropos espirituosos e não ofensivos. Lembro-me de ver raparigas com ar muito sério acabarem por se escangalhar a rir. Lembro-me de as ver comentar umas com as outras e de se rirem desalmadamente. Lembro-me de ver algumas dizerem que “odiavam piropos”, e eu percebia que não gostavam porque não era com elas que eles se metiam.

     

    Piropos femininos. Quem diria?!

  • Dia da Terra

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    Comemora-se hoje, à escala mundial, o Dia da Terra. O festejo tem passado quase despercebido e não é difícil perceber porquê. Talvez por isso me apeteça dizer à Terra, que tantas dádivas nos dá e nada nos pede, que existem milhões de pessoas que sofrem ao vê-la sofrer. Dizer-lhe que há quem tenha esperança que o Homem perceba que se fere a si mesmo quando a desrespeita e maltrata. Dizer-lhe que há quem acredite no desenvolvimento sustentável, no progresso e no respeito pelo meio ambiente. Dizer-lhe que há quem acredite que os comportamentos se alterarão e que surgirão regras que possam vir a pertencer à Carta dos Direitos Humanos. Dizer-lhe, finalmente, que mesmo os seus filhos distraídos a amam.

  • Paixão pelo corpo

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    No dia em que Libério foi surrado por um vizinho, mais baixo e menos encorpado, jurou a si mesmo que se ia inscrever num ginásio. A experiência correu melhor do que inicialmente imaginara, ao fim de umas semanas já praticava várias modalidades. Com o tempo e com o corpo a modificar-se, Libério começou a exibir-se, andava muitas vezes com um calção colado ao corpo e com t-shirts justíssimas.

     

    Depois foi para o boxe, ganhou alguns combates e um dia perdeu um, com más consequências: partiu a cana do nariz e ficou com a cara num trambolho. Teve de ir à faca, como se diz na gíria, mas o resultado não foi muito animador, ficou com um narigão em forma de S. Quem com o Libério se cruzasse, cruzava-se primeiro com o nariz... Sem exagero!

     

    Atirou com as luvas ao chão mas não perdeu a vaidade de exibir os músculos. Alguém lhe disse que as claras e os batidos (uma proteína, como passou a referir) o ajudariam a moldar o corpo. Começou por comer quatro claras e um batido ao pequeno-almoço, mas depressa triplicou as doses. Cresceu, os músculos incharam como um milagre, sem que na verdade fosse um milagre. No ginásio, olhava para a malta conhecida e para o espelho e perguntava: «O que é que acham do meu bíceps? Estou com os abdominais mais definidos, não estou?» Todos os dias ia ao ginásio, todos os dias fazia as mesmas perguntas.

     

    Mas tudo o que já conquistara não lhe bastou, ouviu falar de umas injecções que faziam maravilhas, não descansou enquanto não as adquiriu. Voltou a crescer e a inchar (passou de 95 para 110 quilos), teve de se desfazer da roupa que tinha e comprar nova, dois números acima.  

     

    Andou nisto muito tempo. Deixei de o ver com a namorada, uma loira espadaúda capaz de fazer parar o trânsito. As más-línguas dizem que o Libério perdeu o fulgor, que a verginha já não respondia! Verdade? Mentira? Certo, certo, é que alguém me telefonou dizendo que o Libério está no hospital com um delicado problema de fígado.


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