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Blog - Junho 2014

  • Banha da cobra

    tags: Banha da cobra é melhor ser um humano insatisfeito que um porco satisfeito
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    O que é que a banha da cobra tem?

    Deitei-me com a barriga cheia de jaquinzinhos fritos e cervejas geladinhas e deu no que deu, uma noite agitada, sonhos atrás de sonhos e um pesadelo estranhíssimo. Devo ter ressonado como um rinoceronte! 

    Vou contar-te: sonhei que o meu trisavô, que foi coveiro no Cemitério dos Prazeres, de quem ouvi falar quando era garoto, me fazia perguntas de filosofia, pondo em causa as minhas “certezas”. Depois de me fazer navegar em algumas correntes filosóficas, afogando-me com questões e censuras, perguntou-me se eu tinha banha da cobra em casa. Ia-me batendo quando me ri e lhe disse que banha só mesmo na cintura. Soltou um palavrão e disse que eu estava muito enganado, e de seguida pôs-se a descrever tintim por tintim as maleitas que a pomadinha resolve: males do estômago e da cabeça, dores reumáticas, calos nas mãos e nos pés, assaduras entre as pernas, dores de dentes e de ouvidos, tremores e fobias, zumbidos, velhice precoce, febre amarela, dores da coluna e até do coração. Garantiu-me que ainda vivia graças à pomada. E pôs-se a dar exemplos de gente endinheirada e do poder que não passa sem a banha. 

    E a onça?, perguntei. 

    Qual onça?, eu falo-te de coisas sérias e tu falas-me de animais, retorquiu, cofiando o bigode. Respondi-lhe então, citando Mill, que é melhor ser um humano insatisfeito que um porco satisfeito. O que lhe fui dizer... O meu trisavô pôs-me as mãos na garganta e só não me estrangulou porque entretanto acordei! 

    Vou ter de investigar melhor essa coisa da banha da cobra...

  • Mas ela existe

    tags: Onça
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    Mas ela existe.

    Vizinhos, colegas, conhecidos e desconhecidos, amigos e amigos dos amigos, toda a gente quer saber onde pára a onça que com duas simples mordidas se apossou dos meus braços. Eu acho que também tu, confessa lá, queres saber. Como não posso pintá-la – faltam-me as mãos e os pincéis -, e muito menos dizer quem é, não vá ela aparecer-me novamente e de bocarra aberta, limito-me a ouvir e a escrever a imagem que me vão dando da onça... 

    Há quem diga que viu uma cobra cor-de-laranja com quase cem metros a passear nos Restauradores numa manhã doce de Maio, há quem descreva uma rameira barbuda e com sete bocas, quem insinue que tudo se resume a um amor platónico mal correspondido, quem aposte numa loura má como as piranhas, quem garanta que é uma coelhinha doce como o açúcar, quem tenha visto uma galinha voadora a fazer surf no Guincho, uma marciana mascarada, uma estrela cadente à qual ninguém resiste, uma égua voadora cor-de-rosa (que devora braços e corações), uma elegantíssima ave de rapina que fala mandarim, um Frankenstein que se disfarçou de onça, e outras descrições a que te poupo. 

    Não posso dizer quem é, como já referi, mas ela existe, isso posso garantir-te, posso até adiantar que a conheces. E continua a descer convencida que sobe.

  • Uma história real

    tags: Mordidas Lágrimas
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    Ao colocar a chave na fechadura pareceu-me ouvir um barulho estranho dentro de casa. Algum vizinho, pensei, muito embora ainda mal se vislumbrassem os alvores da madrugada. Inseri a chave, fiz girar a lingueta e entrei, mas ao fechar a porta senti uma corrente de ar estranha. Alguma janela aberta, cismei, enquanto pressionava o interruptor da luz. A lâmpada fundiu-se naquele preciso momento, deixando-me gelado. 

    – Boa noite! Ou prefere que diga bom dia? – perguntou alguém rugindo. 

    Virei-me assustadíssimo, vi um vulto cheio de manchas, uns olhos verdes brilhantes, uma cauda malhada a saracotear-se de um lado para o outro. Tinha acabado de ser apanhado pela onça. E mais não sei dizer, com o medo vem o pânico, com o pânico a incapacidade de raciocinar. 

    Exigiu-me as jóias e eu dei-lhe. Exigiu-me o dinheiro que tinha e eu dei. Exigiu-me todos os bens que possuía e eu dei. Exigiu-me a vida e eu pedi-lhe uns anos. E foi então que descobri o quanto era malvada: pôs-me as patas no pescoço, arreganhou os dentes e com duas rápidas e terríveis mordidas devorou-me os braços. A seguir lambeu as patas e à saída, limpa e satisfeita, ronronou dizendo que voltaria. 

    Limpo as lágrimas com os pés e não sei bem o que fazer.

  • Aqui há onça

    tags: Olhos verdes Mil cautelas
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    Quando vejo a onça fico suado e com uma sede danada. Como se tivesse acabado de atravessar um deserto. Como se não bebesse água há um ano. Que gelo é este que me esfria o sangue? De onde virá esta infinita e inexplicável aflição? 

    Ontem olhei sorrateiramente e vi-lhe as garras pintadas de roxo, tive a sensação que ia desmaiar. Mantive-me vigilante, quietinho como um crocodilo, sentindo o coração pulsar na garganta. Não me atrevo a perguntar ao Altíssimo porque lhe deu umas garras tão afiadas e uns olhos tão penetrantes. Não me atrevo. Aqueles olhos verdes põem-me atarantado. Ora são verdes de esmeralda, ora da cor das folhas da primavera. Ora são verdes de inocência, ora da cor da sedução. Confesso que o meu sangue gela – ou ferve, não sei bem –, e me deixa irracional. Por isso, e por muitos motivos mais, preciso de mil cautelas para não ser devorado. 

    Hoje não penso o que pensei ontem, e amanhã pensarei outra coisa. Talvez um dia, quem sabe, eu possa enfrentar uma onça. 


  • Doía-me a mão

    tags: Escrever
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    Não escrevia uma linha há largas semanas. Doía-me a mão. Ontem, ao agarrar na caneta dei conta que em pouco espaço se esconde uma onça. Das que predam bezerros e até cavalos. Mordidas de onça deixam marca, deixam pois. Do deserto das minhas memórias limparia algumas, reporia outras, deixaria cair algumas defesas. Trataria de colorir os sonhos agora que a primavera chegou. Poria asas nos braços e barbatanas nos pés. Caiava-me de branco também.

    Se o silêncio valesse ouro, como dizem, eu já tinha enriquecido. 

    Não há sapatos bonitos que não me apertem os pés. Porque será?


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