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  • Mas ela existe

    tags: Onça
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    Mas ela existe.

    Vizinhos, colegas, conhecidos e desconhecidos, amigos e amigos dos amigos, toda a gente quer saber onde pára a onça que com duas simples mordidas se apossou dos meus braços. Eu acho que também tu, confessa lá, queres saber. Como não posso pintá-la – faltam-me as mãos e os pincéis -, e muito menos dizer quem é, não vá ela aparecer-me novamente e de bocarra aberta, limito-me a ouvir e a escrever a imagem que me vão dando da onça... 

    Há quem diga que viu uma cobra cor-de-laranja com quase cem metros a passear nos Restauradores numa manhã doce de Maio, há quem descreva uma rameira barbuda e com sete bocas, quem insinue que tudo se resume a um amor platónico mal correspondido, quem aposte numa loura má como as piranhas, quem garanta que é uma coelhinha doce como o açúcar, quem tenha visto uma galinha voadora a fazer surf no Guincho, uma marciana mascarada, uma estrela cadente à qual ninguém resiste, uma égua voadora cor-de-rosa (que devora braços e corações), uma elegantíssima ave de rapina que fala mandarim, um Frankenstein que se disfarçou de onça, e outras descrições a que te poupo. 

    Não posso dizer quem é, como já referi, mas ela existe, isso posso garantir-te, posso até adiantar que a conheces. E continua a descer convencida que sobe.

  • Uma história real

    tags: Mordidas Lágrimas
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    Ao colocar a chave na fechadura pareceu-me ouvir um barulho estranho dentro de casa. Algum vizinho, pensei, muito embora ainda mal se vislumbrassem os alvores da madrugada. Inseri a chave, fiz girar a lingueta e entrei, mas ao fechar a porta senti uma corrente de ar estranha. Alguma janela aberta, cismei, enquanto pressionava o interruptor da luz. A lâmpada fundiu-se naquele preciso momento, deixando-me gelado. 

    – Boa noite! Ou prefere que diga bom dia? – perguntou alguém rugindo. 

    Virei-me assustadíssimo, vi um vulto cheio de manchas, uns olhos verdes brilhantes, uma cauda malhada a saracotear-se de um lado para o outro. Tinha acabado de ser apanhado pela onça. E mais não sei dizer, com o medo vem o pânico, com o pânico a incapacidade de raciocinar. 

    Exigiu-me as jóias e eu dei-lhe. Exigiu-me o dinheiro que tinha e eu dei. Exigiu-me todos os bens que possuía e eu dei. Exigiu-me a vida e eu pedi-lhe uns anos. E foi então que descobri o quanto era malvada: pôs-me as patas no pescoço, arreganhou os dentes e com duas rápidas e terríveis mordidas devorou-me os braços. A seguir lambeu as patas e à saída, limpa e satisfeita, ronronou dizendo que voltaria. 

    Limpo as lágrimas com os pés e não sei bem o que fazer.

  • Aqui há onça

    tags: Olhos verdes Mil cautelas
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    Quando vejo a onça fico suado e com uma sede danada. Como se tivesse acabado de atravessar um deserto. Como se não bebesse água há um ano. Que gelo é este que me esfria o sangue? De onde virá esta infinita e inexplicável aflição? 

    Ontem olhei sorrateiramente e vi-lhe as garras pintadas de roxo, tive a sensação que ia desmaiar. Mantive-me vigilante, quietinho como um crocodilo, sentindo o coração pulsar na garganta. Não me atrevo a perguntar ao Altíssimo porque lhe deu umas garras tão afiadas e uns olhos tão penetrantes. Não me atrevo. Aqueles olhos verdes põem-me atarantado. Ora são verdes de esmeralda, ora da cor das folhas da primavera. Ora são verdes de inocência, ora da cor da sedução. Confesso que o meu sangue gela – ou ferve, não sei bem –, e me deixa irracional. Por isso, e por muitos motivos mais, preciso de mil cautelas para não ser devorado. 

    Hoje não penso o que pensei ontem, e amanhã pensarei outra coisa. Talvez um dia, quem sabe, eu possa enfrentar uma onça. 


  • Doía-me a mão

    tags: Escrever
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    Não escrevia uma linha há largas semanas. Doía-me a mão. Ontem, ao agarrar na caneta dei conta que em pouco espaço se esconde uma onça. Das que predam bezerros e até cavalos. Mordidas de onça deixam marca, deixam pois. Do deserto das minhas memórias limparia algumas, reporia outras, deixaria cair algumas defesas. Trataria de colorir os sonhos agora que a primavera chegou. Poria asas nos braços e barbatanas nos pés. Caiava-me de branco também.

    Se o silêncio valesse ouro, como dizem, eu já tinha enriquecido. 

    Não há sapatos bonitos que não me apertem os pés. Porque será?

  • Elogio da Madrasta

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    Mário Vargas Llosa não se contenta com menos, agudiza-nos os sentidos ao ponto de ficarmos suspensos até à última linha. E a seguir suspiramos fundo, já com pena de termos de nos separar da Lucrécia, de Rigoberto e de um demoniozinho chamado Fonchito.

    O Elogio da Madrasta – que se lê num abrir e fechar de olhos –, é um livro arrojado, sensual, um pouco perverso até, mas extraordinário na sua atroz e embriagante beleza.

    O Elogio da Madrasta
    Mário Vargas Llosa

  • Quem é então o culpado?

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    Quem é então culpado?

    Aqui, os doentes seleccionados no quadro de um dispositivo legal eram recebidos num edifício por enfermeiras profissionais, que os registavam e despiam; havia médicos que os examinavam e os conduziam a uma câmara estanque; um operário administrava o gás; outros procediam ao trabalho de limpeza; um polícia estabelecia a certidão de óbito. Interrogadas depois da guerra, cada uma das pessoas diz: Culpado, eu?

    A enfermeira não matou ninguém, limitou-se a despir e a acalmar doentes, gestos correntes na sua profissão. O médico também não matou, confirmou apenas um diagnóstico segundo critérios estabelecidos por outras instâncias. O servente que abre a torneira do gás, aquele que portanto mais se aproxima do homicídio no tempo e no espaço, efectua uma função técnica sob o controle dos seus superiores e dos médicos. Os operários que esvaziam a câmara fornecem um trabalho de higiene necessário, bastante repugnante, de resto. O polícia observa o procedimento que lhe compete, consistindo em comprovar um óbito e em registar que este teve lugar sem violação das leis em vigor.

    Quem é então culpado? Todos ou ninguém?

    Extracto do livro As Benevolentes, de Jonathan Littell.

    Dou comigo a estabelecer paralelismos com os tempos que correm, relativizando, é claro, pois poucas coisas há que se possam comparar com os horrores da Segunda Guerra Mundial.

    A minha pergunta, porém, é a mesma: Quem é agora o culpado? Todos ou ninguém? Certo, certo, é que enquanto ouvimos a música da crise e a necessidade da austeridade – leia-se, enquanto somos trucidados – há quem vá atulhando os bolsos.


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