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Blog - Novembro 2009

  • A batota

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    Dizem que é o pai da pacificação belga, que é um negociador hábil e persistente, que gosta de literatura clássica. Falo de Herman Van Rompuy, o homem que vai assumir a Presidência da União Europeia. A comissária Cathy Ashton, por sua vez, vai dirigir a diplomacia europeia. Dois nomes absolutamente desconhecidos e que surgem com a clarificação do Tratado de Lisboa. Blair ficou pelo caminho, na sequência do entendimento de última hora das duas principais famílias políticas europeias.

     

    Como cidadão desta grande União pergunto: não deveríamos ser todos nós, europeus, a escolher as personalidades que vão dirigir os nossos destinos?

     

    Um outro acontecimento europeu, este desportivo, fez-me reflectir sobre os poderes e negociatas do futebol internacional. Tratou-se de um erro clamoroso – a bola foi escandalosamente dominada pela mão – que beneficia a França e a empurra para o Mundial de 2010. Numa palavra, venceu o futebol da farsa. A FIFA já disse, entretanto, que o jogo não será repetido, perante a indignação de muitos milhões de espectadores. Percebe-se agora melhor do que nunca por que razão a FIFA e a UEFA não permitem a utilização de meios tecnológicos de apoio ao árbitro.

     

    Não há como escondê-lo, a batota faz parte da política e do desporto. Ámen.

  • Natal 2009

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    Estamos a pouco mais de um mês do Natal. O tempo já começou a mudar, vê-se na aurora, vê-se no dia, vê-se nas tardes e nas noites. Corre uma frescura nova, as noites são agora mais curtas. Curtas são também as economias, não estivéssemos nós a viver uma das maiores crises de que há memória. Mas as ruas e os Centros Comerciais estão engalanados (e desde Outubro!), como que a dizer a cada um de nós: venham, venham, comprem.

     

    Lembro-me bem do tempo em que púnhamos o sapatinho na chaminé e ficávamos ansiosos à espera dos presentes do Pai Natal. Lembro-me de mal dormir e da algazarra que fazia ao chegar de manhãzinha à chaminé, ainda que as prendas se resumissem a um carrito e a uma peça de roupa para vestir, bem longe da bicicleta com que sonhara. Mas eram belos tempos, com a família a conversar à volta de uma mesa ampla, enquanto se comia o bacalhau, as batatas e as couves, numa primeira leva, e as rabanadas, as filhoses e os sonhos, logo a seguir.

     

    Confesso que gosto cada vez menos dos Natais modernos que a máquina consumista nos vem impondo. Começou o dilema, há um sem-número de prendas que é preciso comprar. Vou ao Top Ten dos livros e fico algo desapontado, dou uma vista de olhos à publicidade que colocam na minha caixa de correio e perco-me com tanta coisa. Coragem, penso, preciso de tempo e coragem para comprar presentes para todos.

     

    E de repente dou comigo a pensar: e se em vez de comprar prendas (para quem provavelmente já tem tantas), eu comprasse para quem as não tem? Ou ainda: e se em vez de comprar prendas, canalizasse esses meios para as Associações de Apoio e de Caridade?

  • Um povo com alma de artista

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    Cada vez me convenço mais que somos um povo com alma de artista. Alma de artista em sentido lato. Não, não me refiro apenas ao artista com intuição para a música, para a literatura, para a pintura, para o teatro ou outras artes, não me refiro apenas ao artista que sofre, que chora, que cria, que se comove por qualquer coisa. Não me refiro apenas à Amália Rodrigues ou Rui Veloso, à Vieira da Silva ou Paula Rego, à Sophia de Mello Breyner ou José Saramago, ao Álvaro Siza Vieira ou Manoel de Oliveira.

     

    A nossa alma de artista é muito mais ampla, atravessa gerações, classes e estratos sociais. Já transbordava de talento a nossa alma de artista quando nos pusemos a desvendar o que se escondia atrás da linha do horizonte. Basta pensarmos na Ilha dos Amores de Camões, no esoterismo de Fernando Pessoa, no Quinto Império do Padre António Vieira, ou ainda nos textos filosóficos de Agostinho da Silva.

    Se olharmos com atenção vemos também o outro lado do artista. Sobra-nos improviso e uma capacidade de desenrascanço notável. A fintar o fisco, por exemplo. Correndo atrás do dinheiro fácil. Deixando que os políticos armadilhem a justiça e se eternizem no Poder. Vendo somar ilegalidades atrás de ilegalidades. Fazendo vista grossa à corrupção. Metendo cunhas. Não protestando contra a justiça que temos (ou melhor, com a justiça que não temos). Queixando-nos mas nada fazendo para que a coisas se alterem.

     

    Somos mesmo um país de artistas!

  • São Martinho

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    É dia de São Martinho, dia de sol, lume, castanhas e vinho.

     

    Conta a lenda que tudo aconteceu numa noite chuvosa e fria de Inverno. Ia Martinho montado a cavalo, quando viu no caminho um pobre quase nu, a tremer de frio. Martinho, que era um soldado romano, parou o cavalo, agarrou na espada e cortou ao meio a capa de militar que vestia, dando metade ao mendigo. Conta a lenda que logo que se foi embora a tempestade desapareceu, o céu ficou muito azul e o sol inundou a terra de luz e calor. Diz-se que por esta época do ano cessa por alguns dias o tempo frio, e o sol sorri quente e miraculoso. Diz-se ainda que Martinho abandonou o exército e seguiu a vida monástica tornando-se no santo mais popular da Europa.

     

    Surgiram assim lendas atrás de lendas, adivinhas atrás de adivinhas. Como esta:

     

    Tenho camisa e casaco
    Sem remendo nem buraco
    Estoiro como um foguete
    Se alguém no lume me mete.

     

    De castanhas se trata, naturalmente!

     

    Desejo a todos um bom dia de São Martinho.

  • A Face Oculta

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    Depois de levar com a Face Oculta e com toda a sucata que o caso parece enfermar – vozes e mais vozes acerca do que parece que aconteceu, ou já aconteceu, ou vai acontecer, vozes da oposição a apontar o dedo, vozes de governantes a responderem dizendo «à justiça o que é da justiça» – depois de tudo isto, e tudo isto é pouco para expressar o que se diz por aí, recebi na minha caixa de correio o link que dá acesso à 'lista negra' divulgada pela Administração Fiscal, lista que inclui mais de 22 mil contribuintes com dívidas de impostos não liquidadas.

     

    Da lista de devedores constam mais de 2750 administradores e gerentes de empresas! Quem cumpre fica quase sempre com a ideia que os chicos-espertos (salvo raras excepções) se julgam mais espertos do que todos nós. Assobiam para o lado. Falam muito mal do Estado, mas sugam-no (que é o mesmo que dizer sugam-nos) até onde podem. Fazem-me lembrar as hienas que andam sempre à cata das carcaças que encontram ou que roubam a outros carnívoros, e as toupeiras que se escondem debaixo da terra.

     

    Eça de Queiroz já falava deles em As Farpas, prova de que os anos passam e tudo se mantém na mesma. Que razões explicam haver tantas "faces ocultas em Portugal"? Por várias e simples razões: porque a justiça não funciona; porque quem exerceu o Poder ao longo das últimas três décadas não esteve interessado em resolver o problema; porque somos endemicamente complacentes com a situação.

     

    Fica uma pergunta: até quando?


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