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Blog - Maio 2010

  • Carta de um Morcego

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    Há quem fique arrepiado só de ouvir falar no nosso nome. Chamam-nos morcegos e outros nomes muito esquisitos: morcego-orelhudo, morcego rato-grande, morcego-vampiro, morcego-rabudo, e outros impropérios que não me atrevo sequer a mencionar. 

    Não nos sentimos inferiores aos humanos, bem pelo contrário: temos pêlos tal como vocês (vá lá, um pouco mais), temos mãos com cinco dedos (e só surripiamos para comer), damos leite aos nossos filhotes, vemos muitíssimo bem (ao contrário do que muitos tontos andam por aí a dizer), e fazemos uma coisa que mais nenhum mamífero sabe fazer: voar.

    É claro que podíamos falar de muitas outras particularidades: como a de nos alimentarmos de insectos que são prejudiciais às culturas; como a de transportar o pólen das flores macho para as flores fêmea (temos um papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas); como a de falarmos uns com os outros numa linguagem que só nós entendemos; como a de descansarmos de cabeça para baixo ou a de hibernarmos se for necessário.

    Estamos a desaparecer aos poucos por uma multiplicidade de causas quase todas com origem nos homens, que enchem hectares e hectares de terra com insecticidas, que poluem as águas, que sujam o ar que respiramos, que destroem os nossos abrigos naturais... Como se não bastasse, criaram agora a moda das turbinas eólicas cujas pás nos cortam aos pedaços e cujos sons nos provocam hemorragias internas.

    E embora os outros morcegos não me tenham dado carta-branca para falar em nome deles, eu pergunto: quem são os dráculas, os vampiros, os bruxos, os sanguessugas? Nós ou vocês?

  • O Mundo de Avesso

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    Se é daqueles que gosta das rotinas com tudo arrumadinho e feito nos prazos e na ordem a que se habituou ao longo dos anos, se é daqueles que se dá mal com mudanças imprevistas, se é daqueles que ainda não se deu conta do que está a acontecer, apresse o passo pois o mundo está a mudar rápida e perigosamente. Na dança das novidades tudo pode acontecer: campanha especulativa de ataque ao euro, bolsas em pânico, PECs atrás de PECs, catástrofes ambientais, cinzas vulcânicas sobre a Europa, políticos aos gritos ou a desembainhar as espadas, um regabofe que parece não ter fim.

    Na área em que trabalho – comunicação e internet – o mundo também se pôs de avesso: jornais que não se vendem, índices de audiência televisiva em queda, internautas a fazerem de jornalistas, jornalistas a fazerem de assessores de imprensa, e o diabo a quatro! Ouve-se falar no Facebook de manhã à noite, já houve quem dissesse que se Jesus Cristo fosse vivo andaria a pregar na rede social mais vista no planeta!

    E o que dizer sobre os maus tratos da língua que falamos e escrevemos? Vê-se meio mundo a trocar o "qu" pelo "k" e o "ch" pelo "x", como se fosse uma moda literária! Se os pontapés no Camões fossem só esses... Pobre língua, também ela a ser virada de avesso!

    Acordamos e perguntamos: o que é que vai acontecer hoje?

  • Olhos Mil

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    Semana agitadíssima: para seis milhões de benfiquistas (ou serão sete?) é a catarse tão esperada, para milhões de fiéis a visita tão ansiada do Papa, para milhões de cidadãos é o fado de saber que mais medidas anticrise vêm a caminho. 

    Enchi-me de coragem, caducado que estava o meu Bilhete de Identidade, e fui tratar do Cartão do Cidadão, documento que substitui o velho BI e os cartões de beneficiário da Segurança Social, de Utente de Saúde e de Contribuinte. Quatro em um!

    Confesso que fiquei agradavelmente surpreendido com o atendimento e com o pouco tempo que perdi para resolver o assunto. Esqueci-me do Cartão de Utente mas o sistema conhecia o número; esqueci-me do número de Contribuinte mas o sistema sabia qual era; esqueci-me dos três últimos números do código postal da minha actual morada, mas o sistema e a sua memória de elefante não me deixaram ficar mal.

    Na perspectiva de utente não podia ter corrido melhor. Na perspectiva de cidadão com direito à privacidade fiquei a cogitar na revolução digital a que assistimos e na forma como a sociedade nos desnuda. Os nossos passos são registados desde que nos levantamos até à hora em que nos deitamos. Se um dia o Estado, ou qualquer outra entidade privada, se puser a reunir e a cruzar a informação que vamos produzindo – e que é registada através de cartões de crédito, de código de barras, de cartões de fidelização, de câmaras de vídeo, da Internet, ou de muitos outros suportes, como o Facebook – pouco ou nada ficará por saber. E não é de escutas que estou a escrever!

    Há olhos por todo o lado, olhos que sabem quem somos, com quem andamos, que dinheiro temos, quanto gastamos, o que comemos, que uísque bebemos, por que estradas conduzimos, com quem trocamos mensagens, que preservativos utilizamos e com que periodicidade os adquirimos. Assustador!

    Em muitas cidades, por razões de segurança, proliferam as câmaras de vídeo. É o preço do desenvolvimento, dirão alguns, é o início de uma nova era com muito menos liberdade, dirão outros. E o que mais podemos imaginar neste louco mundo da revolução digital?

  • Gatos gordos (2)

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    Se é dos que pouco ou nada sabe sobre as Agências de Rating não desespere, pois há centenas de milhões de pessoas na mesma situação.

    Sabemos que há três agências – todas elas americanas –, sabemos que tecem comentários sobre o risco de um país ou de uma empresa suspender os pagamentos das suas dívidas, sabemos que sobem e descem ratings.

    É certo que Portugal não tem tido uma conduta exemplar de há pelo menos dez anos a esta parte. É verdade que o crescimento é medíocre, que o desemprego é muito elevado e que os grandes investimentos públicos fazem levantar um rol de interrogações. O que não se entende, nem há explicações que o permitam entender, é como é possível que as Agências alterem o posicionamento de um país em trinta ou quarenta lugares de uma só vez!

    Ninguém sabe muito bem que critérios utilizam, conhece-se apenas a simbologia feita de letras e sinais numéricos do tipo AA+ ou AAA que, não fosse o assunto tão sério, e seria motivo para nos rirmos. Vale a pena perguntar por onde andavam os crânios das Agências de Rating quando falharam escandalosamente a avaliação dos títulos ligados ao imobiliário, vale a pena perguntar porque nunca viram nada de estranho na teia montada por Madoff. Que são sanguessugas a quem Obama chamou gatos gordos, que perseguem interesses especulativos, que caucionam políticas e decidem o mundo já todos percebemos!

    Alguns estados norte-americanos avançaram já com processos judiciais contra estas Agências, às quais assacam responsabilidades pela crise internacional que se está a viver. O que dificilmente se entende é por que razão a União Europeia ainda não o fez.


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