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Blog - Abril 2010

  • Piropos

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    Foi no primeiro dia de sol desta primavera chuvosa. Atravessei o Jardim Amália Rodrigues, que fica a norte do Parque Eduardo VII, quando reparei nelas. Eram três raparigas, entre os vinte e os vinte e cinco anos, caminhavam à minha frente e no mesmo sentido que eu. Riam-se alegremente, aquele riso de ouro que faz com que os olhos se iluminem...

     

    Foi tudo muito rápido... No sentido inverso vinha um jovem bem-parecido e da mesma faixa etária. Uma das raparigas virou-se para trás e disse, num tom de brincadeira: «Ui, ui, ui, eu passava a mãozinha naquele rabinho!» Tal e qual... Deu-me gosto vê-los: elas a olharem para trás num ambiente de pura folia e ele a rir-se envergonhado, mas sem se atrever a virar.

     

    Também eu sorri. Mudam-se os tempos, mudam-se as ideias, alteram-se os comportamentos. Nunca fui de mandar piropos (era demasiado envergonhado para isso), mas lembro-me de os ouvir em adolescente, e mais adiante, e de lhes achar piada, quando na verdade tinham graça. Refiro-me naturalmente a piropos espirituosos e não ofensivos. Lembro-me de ver raparigas com ar muito sério acabarem por se escangalhar a rir. Lembro-me de as ver comentar umas com as outras e de se rirem desalmadamente. Lembro-me de ver algumas dizerem que “odiavam piropos”, e eu percebia que não gostavam porque não era com elas que eles se metiam.

     

    Piropos femininos. Quem diria?!

  • Dia da Terra

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    Comemora-se hoje, à escala mundial, o Dia da Terra. O festejo tem passado quase despercebido e não é difícil perceber porquê. Talvez por isso me apeteça dizer à Terra, que tantas dádivas nos dá e nada nos pede, que existem milhões de pessoas que sofrem ao vê-la sofrer. Dizer-lhe que há quem tenha esperança que o Homem perceba que se fere a si mesmo quando a desrespeita e maltrata. Dizer-lhe que há quem acredite no desenvolvimento sustentável, no progresso e no respeito pelo meio ambiente. Dizer-lhe que há quem acredite que os comportamentos se alterarão e que surgirão regras que possam vir a pertencer à Carta dos Direitos Humanos. Dizer-lhe, finalmente, que mesmo os seus filhos distraídos a amam.

  • Paixão pelo corpo

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    No dia em que Libério foi surrado por um vizinho, mais baixo e menos encorpado, jurou a si mesmo que se ia inscrever num ginásio. A experiência correu melhor do que inicialmente imaginara, ao fim de umas semanas já praticava várias modalidades. Com o tempo e com o corpo a modificar-se, Libério começou a exibir-se, andava muitas vezes com um calção colado ao corpo e com t-shirts justíssimas.

     

    Depois foi para o boxe, ganhou alguns combates e um dia perdeu um, com más consequências: partiu a cana do nariz e ficou com a cara num trambolho. Teve de ir à faca, como se diz na gíria, mas o resultado não foi muito animador, ficou com um narigão em forma de S. Quem com o Libério se cruzasse, cruzava-se primeiro com o nariz... Sem exagero!

     

    Atirou com as luvas ao chão mas não perdeu a vaidade de exibir os músculos. Alguém lhe disse que as claras e os batidos (uma proteína, como passou a referir) o ajudariam a moldar o corpo. Começou por comer quatro claras e um batido ao pequeno-almoço, mas depressa triplicou as doses. Cresceu, os músculos incharam como um milagre, sem que na verdade fosse um milagre. No ginásio, olhava para a malta conhecida e para o espelho e perguntava: «O que é que acham do meu bíceps? Estou com os abdominais mais definidos, não estou?» Todos os dias ia ao ginásio, todos os dias fazia as mesmas perguntas.

     

    Mas tudo o que já conquistara não lhe bastou, ouviu falar de umas injecções que faziam maravilhas, não descansou enquanto não as adquiriu. Voltou a crescer e a inchar (passou de 95 para 110 quilos), teve de se desfazer da roupa que tinha e comprar nova, dois números acima.  

     

    Andou nisto muito tempo. Deixei de o ver com a namorada, uma loira espadaúda capaz de fazer parar o trânsito. As más-línguas dizem que o Libério perdeu o fulgor, que a verginha já não respondia! Verdade? Mentira? Certo, certo, é que alguém me telefonou dizendo que o Libério está no hospital com um delicado problema de fígado.

  • O Tibúrcio

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    Chama-se Tibúrcio, um nome invulgar, mas podia chamar-se Mascarenhas, Soares, Zeferino, ou simplesmente Bernardo, que ia dar ao mesmo. Não é fácil caracterizá-lo fisicamente: não é alto nem é baixo, não é gordo nem é magro, tem os olhos ligeiramente encovados e um ar entre o murcho e o sério. É daquelas pessoas em que ninguém repara.

     

    Trabalhou quinze anos como contabilista numa empresa de Auditoria e Contabilidade: lambendo papel de todas as cores e tamanhos, atribuindo códigos, registando operações no deve e no haver, conferindo números, processando salários, nome a nome, conta a conta. Era um homem às direitas, o Tibúrcio, sempre aprumadinho e de gravata ao peito, como o patrão gostava que ele andasse. Nem aos fins-de-semana a tirava, não fosse cruzar-se com o Manda-chuva! Trabalhou sempre como um mouro, pegava às oito horas e nunca saía antes das vinte e uma. Nos fechos de trimestre até aos sábados e domingos trabalhava. O patrão fitava-o por cima dos óculos e perguntava: «Ó Tibúrcio, já fechaste o IVA?... Ó Tibúrcio, onde está o raio do balancete que te pedi? Ó Tibúrcio, estás à espera de quê para telefonar aos clientes que ainda não pagaram? E o Tibúrcio punha mãos à obra e processava tudo com uma eficiência que fazia lembrar um robot.

     

    Quando eu o convidava para ir à praia ou ao cinema, ou para uma simples jogatana, dizia-me sempre que não podia. Foi-se tornando escravo do trabalho e escravo do dinheiro. Passeava sozinho, ao domingo, como se fosse o cão de si mesmo.

     

    Um dia teve um acidente de viação e ficou uma semana em coma e três meses para se recompor. Teve algumas visitas, poucas, mas nunca a do patrão. Quando por fim teve alta, já o lugar fora ocupado por outro. E como um mal nunca vem só, umas semanas depois perdeu a mulher que por outro se apaixonou.

     

    Andou um pouco deprimido, o meu amigo Tibúrcio, um dia disse-me que ia de férias por dois ou três meses. Sem rumo, garantiu. Foi até ao sul de Espanha e entrou em África, atravessou Marrocos e foi até à Tunísia. Quando o voltei a ver não o reconheci: tinha barba e andava com o cabelo puxado e preso atrás das orelhas. Agora já não é branco nem pálido, veio moreno, quase tisnado.

     

    Quando me vê convida-me sempre para beber um café. Está mais expansivo, vê-se claramente que ganhou alma. Anda a convencer-me a fazer capoeira às terças e quintas, mas também se meteu a aprender tango, aos domingos, com uma rapariga por quem se enrabichou. Mas não é tudo, registou-se como empresário em nome individual e começou a fazer a escrita para alguns clientes. «Começo às nove horas e largo às dezoito», diz, «nem para mim volto a ser escravo», garante. 

     

    «Abençoado acidente», disse-lhe eu há dias, «ainda bem que o iluminado do teu patrão te despediu.» Sorriu até às orelhas, como eu nunca o tinha visto sorrir, e deu-me um abraço. Olho para o meu amigo Tibúrcio e percebo que já não é o mesmo, apenas o nome se mantém.  

  • Anda tudo louco (4)

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    Lembrei-me de falar nos bairros e nos lobbies no meu post anterior  – se bem que os primeiros apenas tivessem servido de introdução – , mas se pensarmos à escala mundial, deparamos com um quadro semelhante, isto é, esquizofrénicos governantes a correrem por armamento atómico e egoístas corporações a quererem mostrar ao mundo o umbigo e o poder que detêm.

     

    Anda tudo louco: foi o 11 de Setembro, foi o mentecapto do Bush a fazer a guerra ao Iraque, foi a crise energética, é a crise económica numa extensão jamais admitida pelos neoliberalistas, é a diminuição da floresta tropical amazónica, é a tentativa de expansão dos três maiores impérios – EUA, União Europeia e China –, é o terrorismo à escala mundial, é a crise da igreja, para só falar dos que me vêm à memória.

     

    A génese e a história dos conflitos assenta quase sempre na desproporcionada distribuição da riqueza, por um lado, e na insaciável sede de poder, por outro. O mundo encolheu, há mais gente e mais cobiça, há mais desenvolvimento e menor nível de vida, tudo se altera a uma velocidade supersónica.

     

    Pouco sentido faz ser contra ou a favor da globalização, ela instalou-se e exibe-se, só não vê quem não quer. O futuro esconde-se de nós e ameaça não voltar a ser o que costumava ser! A loucura a que assistimos faz-me lembrar as palavras de Hans Morgenthau: «A ciência enriqueceu o homem no domínio técnico sobre a natureza inanimada, mas empobreceu-o na sua procura por uma resposta ao enigma do Universo e da sua existência nele.»

     

    É um cliché mas pouco me importa, hoje apetece-me dizer que o melhor é viver um dia de cada vez.

  • Anda tudo louco (3)

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    O bairro onde eu vivia quando era miúdo estava entalado entre dois outros, maiores e mais conhecidos. Entre estes prevalecia o espírito bairrista, quezilento... Lembro-me como se fosse hoje, cada um desses bairros procurava forma de se superiorizar – no futebol, no ciclismo, no namoro com as garotas mais giras que houvesse –, nenhuma das partes olhava a meios e fins para se destacar. Nós, os miúdos do centro, assistíamos à guerra e não nos envolvíamos, de resto éramos amigos de uns e de outros. Alguma bordoada evitámos certamente por não pertencer a nenhum dos lados!

     

    Porque me lembro disto?

     

    Quando me ponho a pensar nos tempos que correm, quando folheio um jornal ou assisto a um telejornal, rara é a vez que não presencio a guerra dos interesses que regem a sociedade em que vivemos. Existem mais lobbies do que cogumelos em dias de chuva: lobbies políticos, lobbies económicos, lobbies da justiça, lobbies religiosos, lobbies sindicais, lobbies desportivos (para só falar de alguns). Defendem os seus interesses próprios, pouco se importando com as consequências dos seus actos em relação a terceiros. Não visam o poder, visam condicioná-lo, visam influir nas decisões, quase sempre veladamente, para salvaguardar ou promover as suas conveniências.

     

    Os lobbies têm geralmente porta-vozes. É curioso observá-los: falam e actuam como se fossem deuses, como se possuíssem a verdade. São míopes e conservadores, salvo raras excepções. Míopes porque só vêem o lado deles, conservadores porque são contra qualquer mudança que altere os seus interesses. Pouco lhes importa que o país saia prejudicado.

     

    No Portugal à beira-mar plantado temos ainda, para além dos grupos de interesse, a cultura da cunha, a forma ardilosa de se obter injustamente o que muitos por mérito não conseguem. O que é a cunha? É o favorzito, é o tacho, é o mete à frente, é o deixa passar, é o faz de conta, é o borrifar para os outros e cada um que se safe.

     

    E se em vez de os observarmos os obrigássemos a parar?


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