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  • O nada

    tags: O nada Escrever O tempo
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    Acontece-me escrever quando me distraio ou quando me foge o sono. À luz de uma vela e vendo a madrugada a passar. Quando a sopa está quente também escrevo, assopro e as letras caem no papel. Não sei bem porque escrevo, mas há doidices piores. Na escuridão do meu quarto penso, desarrumo o passado e dou conta, numa ordem cronológica invertida, do verbo que já fui: corri, joguei, subi às árvores, brinquei em vários jardins, plantei, tropecei em alguns lugares, lutei com monstros e fantasmas, admirei vários céus, roubei o que podia ser roubado, fiz coisas incontáveis.

    Hoje ocorre-me a certeza do nada. O nada é quase sempre divertido, conheci-o numa tarde de Inverno na avenida das Descobertas. Um rosto e um corpo belos mas invisíveis. O mesmo posso dizer dos olhos, penetrantes mas indecifráveis, e dos cabelos, lindos mas de uma cor que não consigo descrever. Inteligentíssimo, o nada, lá isso era. Era e continua a ser provavelmente. Ficamos a palestrar num silêncio profundo. A certa altura deixou um pião a rodar e desapareceu oculto no arvoredo. Esfumou-se, durante uns tempos deixei de lhe pôr os olhos em cima… Voltei a vê-lo num dia em que choviam flores do céu (flores de todos os tipos, cores e tamanhos); mais tarde, numa noite quente de Verão, passou por mim como se fosse um pirilampo; outra vez, numa altura em que eu carregava uma dúvida existencial, bateu-me na nuca e a seguir torceu-me o nariz e foi-se embora (a bem dizer, apagou-se, como se de uma luz se tratasse); semanas mais tarde acordei com o nada a perguntar-me ao ouvido: O que fazes do tempo?

    Não voltei a vê-lo, mas nunca me esqueci da pergunta. O pião, esse, nunca mais deixou de rodar.


  • Circuncisão, 2ª parte

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    Circuncisão (2ª parte)

    Uma picadinha nos testículos, disse o médico, do outro lado da cortina. Uma picadela dolorosa queres tu dizer, pensou Josué. Largou um ai na anestesia, um ai sonoro. Voltaram a tapá-lo, mas dez minutos depois sentiu uma das enfermeiras destapar-lhe as vergonhas. Uma espécie de tiro de partida. Seguiu-se um silêncio religioso, um silêncio que o fez ter a certeza que lhe estavam a contemplar o lagarto. Com o cérebro toldado pelas luzes e pelas dúvidas, deixou de os ouvir pelos ouvidos, passou a ouvir e até mesmo ver com o coração. Distinguiu sombras, viu tesouras e bisturis de vários tamanhos, viu fórceps, viu pinças e mais pinças, teve a sensação que uma das enfermeiras o apalpou, a certa altura ouviu mesmo a respiração da enfermeira com olhos de égua brava. A malvada tinha um cinturinha fina, lá isso até tinha, o pior eram os olhos de camaleão a observá-lo de todos os ângulos. Se eu mandasse corria com ela deste hospital, sentenciou irritado.

    Quando menos esperava viu-se no recobro. Enfermeira, enfermeira, a que horas saio daqui?, perguntou. Vai sair daqui quando lhe dermos autorização, respondeu a enfermeira de olhos de égua brava. Como é que se chama, enfermeira?, questionou. Tanta curiosidade, tanta curiosidade… Não lhe basta chamar-me enfermeira?, respondeu a mulher engelhando a testa e abanando a cabeça em sinal de censura.

    Por fim lá saiu, a fulaninha deu-lhe uma pomada para colocar de oito em oito horas, uma receita para aviar, um papel com recomendações, e o contacto telefónico, caso precisasse de ajuda. Josué chamou um táxi e pediu-lhe que o levasse a casa. O pior foram os solavancos, o efeito da anestesia terminara… Doía-lhe cada vez que o taxista curvava, doía-lhe quando o doido travava, doía-lhe quando o maluco passava por cima de buracos.
    Puxou as calças e espreitou assim que chegou a casa, a coisa estava inchada, disforme, parecia até ter aumentado de tamanho. Ficou dividido entre o susto e o riso, uma voz sussurrou-lhe ao ouvido um invulgar e obsceno devaneio. Devaneio que acabaria por se concretizar, como se verá na próxima semana.


  • Circuncisão

    tags: Circuncisão
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    Sentiu os cabelos eriçarem-se e uma sensação de frio na espinha quando o médico lhe disse que tinha de ser operado. Nunca, never, jamais, nie, pensou Josué, era o que faltava colocar o salpicão nas mãos daquele sujeitinho de bata branca ou naqueles outros de bata azul. É certo que o mangalhito estava a ficar cabeçudo, lá isso estava, mas funcionava e isso era o mais importante.

    O médico dissera-lhe para se dirigir ao balcão e escolher um dos poucos dias que ainda tinha disponíveis para operar até ao final do mês. Quando Josué saiu do gabinete teve a sensação que todas as caras, ou quase todas, se viraram para si. Olhou para a mulherzinha que estava atrás do balcão – uma loira sardenta e sem pescoço, com grandes olhos azuis –, pareceu-lhe que ela sorria trocista.

    Saiu do hospital apressado e a jurar pela alma que não iria à faca, esqueceu-se até de pagar a consulta. E não era para menos, ser circuncidado aos vinte e sete anos era a coisa mais difícil que lhe poderia acontecer na vida. Já tinha passado por muitas dificuldades, muitos obstáculos, muitos sarilhos, muitas ondas, muitas aventuras com consequências, mas nenhuma como aquela. E se eles se enganassem e em vez de cortarem o prepúcio lhe cortassem a cabeça do salsichão? Ou até mesmo o salsichão inteiro… Não, não era de fiar em hospital algum!

    Um mês depois lá se decidiu e fez o agendamento, só umas horas depois deu conta que a cirurgia ficara marcada para o dia 13, sexta-feira às 13 horas. No lo creo en brujas pero que las hay las hay, pensou. Por fim lá se decidiu, entrou de peito feito no hospital mas foi directo ao WC, uma dor de barriga dera-lhe a volta à tripa. Enquanto fazia sentado o que ninguém podia fazer por si, olhou com orgulho e piedade para a espada, e desejou-lhe sorte.

    Assim que entrou no bloco, uma funcionária mandou que se despisse e vestisse o traje operatório. Quinze minutos depois viu-se deitado numa marquesa e rodeado por três auxiliares vestidas de azul: uma, na casa dos quarenta, sorriu-lhe mostrando uns incisivos de respeito; uma outra, com olhos de égua brava, praguejava dizendo que estava esganada de fome; a terceira, gorduchona mas simpática, perguntou-lhe se se sentia bem-disposto. Nunca me senti tão bem na vida, retorquiu. Elas vão assistir a tudo, cismou, olhando para o tecto.

    A enfermeira com olhos de égua colocou uma espécie de biombo de forma a impedir que ele visse o que ia acontecer mais abaixo, enquanto outra puxava o lençol e o deixava nu do umbigo para baixo. O médico entrou imediatamente a seguir, vociferando com o que lhe acontecera na cirurgia anterior. Por um instante pensou em levantar-se e fugir dali, só não o fez porque se lembrou que não sabia onde lhe tinham posto a roupa e os sapatos. E fugir nu do hospital não era propriamente um cenário discreto!

    cp
    Nota: a história continua...


  • As três Luas

    tags: As três Luas
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    Existem três Luas, sabes isso tão bem como eu. Em tempos imemoriais, quando era eu falcão e tu sereia com asas, fizeste uma malandrice daquelas! Lembras-te? Vá lá, não digas que não…

    Recordo-me tão bem, eu estava empoleirado num cedro quando te vi subir e depois bailar descalça em cima de uma árvore gigante. Estavas nua, tinhas apenas um colar de conchas ao pescoço, e os olhos postos no céu. Os teus olhos… Oh, os teus olhos tinham a cor da magia, eu olhava como se estivesse hipnotizado! Que imagem, meu Deus, uma visão daquelas acontece uma vez na vida…
    Nessa altura viam-se sempre três Luas, muito belas, tão belas que o céu se vestia de luz e de estrelas todos os dias. As Luas coscuvilhavam horas e horas, lembras-te?

    Tempos depois, numa quente noite de Março, a mais séria das três Luas disse que o teu canto fazia chocar navios, que eras lava e fogo e até mesmo desgraça. Esticaste uma asa e fizeste-a desaparecer, o teu riso encheu a atmosfera. Uma outra, tão elegante que mal se via, chamou-te má e feiticeira, garantiu mesmo que depois de seduzires anjos e poetas, os levavas para o fundo do mar. Sopraste com tanta força que ninguém mais a viu. A mais louca das três, tão redonda e manhosa quanto boémia, achava-te graça, dizia que tinhas vindo de Vénus, que pouco ou quase nada fazias senão provocar amores e desamores. A essa sorriste e enviaste um beijo, tudo em ti era alegria, malandrice, sedução. Viste-me a olhar para ti, e eu fiquei vermelhíssimo, como se tivesse sido apanhado a roubar. Olhei para o chão, quando levantei os olhos tinhas desaparecido.
    O tempo passou, depois de falcão tive outras vidas, fui serpente, baleia, pintassilgo, lobo, e em todas elas te vi, sempre linda, sempre caprichosa. Renasci, sou humano e pecador, deixei de te ver, de ver a sereia que sempre foste…

    Hoje porém, olhando para a Lua, encantadora e sedutora como nunca, a uivar sobre amores e prazeres, a declamar poemas ao desejo, dei conta que a Lua agora és tu, e que é tua a saliva que tenho nos lábios.


  • Banha da cobra

    tags: Banha da cobra é melhor ser um humano insatisfeito que um porco satisfeito
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    O que é que a banha da cobra tem?

    Deitei-me com a barriga cheia de jaquinzinhos fritos e cervejas geladinhas e deu no que deu, uma noite agitada, sonhos atrás de sonhos e um pesadelo estranhíssimo. Devo ter ressonado como um rinoceronte! 

    Vou contar-te: sonhei que o meu trisavô, que foi coveiro no Cemitério dos Prazeres, de quem ouvi falar quando era garoto, me fazia perguntas de filosofia, pondo em causa as minhas “certezas”. Depois de me fazer navegar em algumas correntes filosóficas, afogando-me com questões e censuras, perguntou-me se eu tinha banha da cobra em casa. Ia-me batendo quando me ri e lhe disse que banha só mesmo na cintura. Soltou um palavrão e disse que eu estava muito enganado, e de seguida pôs-se a descrever tintim por tintim as maleitas que a pomadinha resolve: males do estômago e da cabeça, dores reumáticas, calos nas mãos e nos pés, assaduras entre as pernas, dores de dentes e de ouvidos, tremores e fobias, zumbidos, velhice precoce, febre amarela, dores da coluna e até do coração. Garantiu-me que ainda vivia graças à pomada. E pôs-se a dar exemplos de gente endinheirada e do poder que não passa sem a banha. 

    E a onça?, perguntei. 

    Qual onça?, eu falo-te de coisas sérias e tu falas-me de animais, retorquiu, cofiando o bigode. Respondi-lhe então, citando Mill, que é melhor ser um humano insatisfeito que um porco satisfeito. O que lhe fui dizer... O meu trisavô pôs-me as mãos na garganta e só não me estrangulou porque entretanto acordei! 

    Vou ter de investigar melhor essa coisa da banha da cobra...


  • Mas ela existe

    tags: Onça
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    Mas ela existe.

    Vizinhos, colegas, conhecidos e desconhecidos, amigos e amigos dos amigos, toda a gente quer saber onde pára a onça que com duas simples mordidas se apossou dos meus braços. Eu acho que também tu, confessa lá, queres saber. Como não posso pintá-la – faltam-me as mãos e os pincéis -, e muito menos dizer quem é, não vá ela aparecer-me novamente e de bocarra aberta, limito-me a ouvir e a escrever a imagem que me vão dando da onça... 

    Há quem diga que viu uma cobra cor-de-laranja com quase cem metros a passear nos Restauradores numa manhã doce de Maio, há quem descreva uma rameira barbuda e com sete bocas, quem insinue que tudo se resume a um amor platónico mal correspondido, quem aposte numa loura má como as piranhas, quem garanta que é uma coelhinha doce como o açúcar, quem tenha visto uma galinha voadora a fazer surf no Guincho, uma marciana mascarada, uma estrela cadente à qual ninguém resiste, uma égua voadora cor-de-rosa (que devora braços e corações), uma elegantíssima ave de rapina que fala mandarim, um Frankenstein que se disfarçou de onça, e outras descrições a que te poupo. 

    Não posso dizer quem é, como já referi, mas ela existe, isso posso garantir-te, posso até adiantar que a conheces. E continua a descer convencida que sobe.



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