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  • Faltou perguntar

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    Esta semana ouvi dizer em dois debates televisivos que Portugal vive acima das suas possibilidades. Como economista que sou, não tenho dificuldade em compreender e admitir a situação.
    Mas a questão central é: que estratos sociais vivem acima das suas possibilidades? Ou, se quisermos ver por outro prisma, quem tem condições para pagar a crise?

     

    Acabo de ler num matutino que os pilotos da Tap ameaçam com nova greve de quatro dias.
    Dá vontade de perguntar: Que mais querem os pobrezitos?

     

    Li também algures que a Alemanha é apologista de que a Grécia venda umas ilhas para reduzir o défice.
    Reli duas vezes para ter a certeza de que não me tinha enganado. E se a moda chega a Portugal?

     

    Li no Expresso que há uma Editora Portuguesa interessada em publicar a história dos homicídios do monstro português em Fortaleza.
    É caso para dizer: Luís Militão, o crime compensa!

  • Sem sabor

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    Pedi uma sopa, uma salada mista e um sumo. A primeira estava ligeiramente salgada, a segunda não sabia a quase nada: o tomate estava avinagrado e as rodelas de maça e de cenoura sabiam a tudo menos a maça e a cenoura. O sumo, esse, possuía um sabor indecifrável (tinha banana e abacaxi, mas este último devia ser de lata).

     

    Comi, saí e entrei no carro, uma estação falava na autorização da União Europeia para a produção de batata e milho transgénicos e na reacção de espanto e de choque por parte dos ecologistas. A história diz-me que a razão tem andado sempre muito mais perto destes do que daquela. Por um sem número de razões, basta que nos lembremos da contaminação genética, do uso excessivo de herbicidas, ou das ameaças à saúde humana.

     

    Cheguei a casa, estiquei-me ao comprido e liguei o televisor, coisa que raramente faço, e fiquei a ouvir o Professor Medina Carreira falar dos Partidos Políticos que têm governado o país desde 1974. Não vou descrever o que ouvi, quem quer que me esteja a ler imagina o que foi dito.  

     

    Que raça de tempo, pensei, enquanto desligava o televisor e me punha a ler 1919, de John dos Passos, um dos grandes escritores norte-americanos do século passado. Quando me deitei já eu estava mais bem-disposto.

  • O mundo

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    Tive sempre mais facilidade em fazer-me entender junto de adultos do que de crianças, o que não é propriamente um elogio.

     

    Lembro-me de estar a ler uma história a um garoto de cinco anos e de ele me pedir para explicar o que era o mundo. Confesso que tive de reflectir uns quantos segundos antes de responder. Fazia sentido falar-lhe do Universo? Fazia sentido falar-lhe do mundo verdadeiro, ainda que de uma forma simples, ou deveria antes pintá-lo de fantasia e brincadeira? Fazia sentido dizer-lhe que o mundo era o conjunto de tudo quanto existe – continentes e oceanos, pessoas e animais, e chegar aos bons e aos maus, como é do agrado das crianças?

     

    «O mundo é uma escola grande onde se pode aprender a ler, a escrever, a brincar, a inventar, a crescer...», disse-lhe. «E todas as pessoas aprendem a inventar e a crescer?», perguntou-me sorrindo. E eu fiquei sem saber o que dizer.

  • Fernando Nobre

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    Passei uns dias fora do país sem acesso à informação. Soube, assim que cheguei, que o fundador e líder da Assistência Médica Internacional (AMI), o médico Fernando Nobre, se vai candidatar à Presidência da República. Trata-se de uma boa novidade. Primeiro, porque é preciso repensar Portugal. Repensar estratégias, repensar objectivos, repensar caminhos. Segundo, porque é altura da sociedade civil demonstrar que a política deve estar acima dos políticos não se esgotando neles. Terceiro, porque se trata de um humanista que consagrou a vida a ajudar quem precisa. Um humanista sem uma máquina partidária e financeira atrás de si.

     

    Bem-vindo, Fernando Nobre!

  • Carnaval

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    É tempo de festa, é tempo de Carnaval: máscaras, folias, travessuras, bailes de gala, cortejos de rua. Máscaras de políticos ou de animais, divertidas ou sinistras, sagradas ou profanas. Calha sempre numa terça-feira. Há quem leve o ano inteiro a preparar-se. Como o Viegas.

     

    Disse-me há três meses que se ia mascarar de galo. Porquê?, perguntei. Para conquistar um poleiro, respondeu.
    Disse-me depois que se ia mascarar de frade. Porquê?, indaguei. Para dar que falar a um convento, disse, abrindo muito os braços.
    Disse-me mais recentemente que se ia mascarar de cigarra. Porquê?, voltei a perguntar. Para aprender a ser político, respondeu sorrindo.

     

    É Carnaval, ninguém leva a mal!

  • A selva

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    O dia nasceu com a bicharada nervosa, a trotear, a saltar, a voar para o local onde a assembleia se ia reunir. Viam-se dezenas de belas Raposas, Faisões em grandes correrias, Babuínos de várias espécies, Ursos enormes, ouviam-se os cantos estridentes das Cigarras e Gafanhotos, o cacarejo das Galinhas, os uivos dos Lobos. As bancadas encheram-se: Lebres, Escaravelhos, Cabras, Camelos, Centopeias, Cobaias, Lesmas, Escorpiões, ninguém quis perder a assembleia.


    Os animais concentrados encavalitavam-se, esticavam o pescoço para ver melhor. Dos ramos das árvores, carregadas de pássaros, vinha um chilreio magnífico. O Faisão quis apresentar um relatório sobre a situação, mas não conseguiu mais do que levantar as asas.


    – A selva está em crise, não temos onde comer, não temos onde comer! Quem são os culpados por esta situação? – perguntou o Camelo.
    – O Leão e a família, como é óbvio – resmungou a Lebre.
    – A manada de Elefantes, a manada de Elefantes – baliu a Cabra.
    – A educação está um caos, os meus pintainhos mal sabem ler. Quem são os culpados por esta situação? – cacarejou a Galinha.
    – Os Gafanhotos e as Cigarras que nada fazem e tudo destroem – disse o Faisão, muito convicto das suas razões.
    – Cala-te pavão, que te arranco as penas – disse o Abutre, levantando as asas.
     – Ai o meu reumatismo, ai o meu reumatismo... A quem devo exigir explicações? – perguntou a Raposa, levantando as orelhas.


    O burburinho foi aumentando à medida que a chuva de acusações de todos os lados desabou sobre a assembleia. Ouviram-se injúrias, nomes feios, desonras do tamanho das nuvens. A Centopeia, que de uma forma desesperada procurava pelos óculos, ia suplicando, não se ofendam tanto, não se ofendam tanto, ao mesmo tempo que se lamentava dizendo, ai que me sobe a tensão, ai que me sobe a tensão.


    E de repente, um ciclone devastador irrompeu na assembleia. O Camelo, que quando jovem praticara boxe, perdeu as estribeiras e saiu disparado em direcção ao Babuíno, mas este, muito hábil, fazendo jus às suas qualidades de bailarino, desatou a fugir, ao mesmo tempo que um Lobo arranhava com a pata esquerda a cabeça de uma Doninha que, levantando a cauda, logo se pôs a libertar gases tóxicos; o Urso, que até à altura parecia estar num estado de latência permanente, mordeu uma das patas de uma Girafa que, coitada, ficou pálida como uma osga. O Faisão, o mais colorido dos participantes, desapareceu e nunca mais foi visto.


    Lá fora, indiferentes aos acontecimentos, as árvores preguiçavam ao sol.


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