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  • O oito e o oitenta

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    Temos uma maneira de ser muito portuguesa e um jeito que mais ninguém tem para o desenrascanço. Gostamos ou não gostamos, não há termos intermédios. Somos do tipo pão pão, queijo queijo. 

    Somos desconfiados e provavelmente com razões para tal. Dentro das nossas cabeças corre o orgulho do nosso passado, da mesma forma que corre a descrença e a angústia quanto ao futuro.

    Em quase tudo o que leio ou escuto vejo escarrapachado «o oito ou o oitenta». Entre este e aquele nada mais existe. Não é genuinamente português quem conseguir idealizar outras tonalidades entre o preto e o branco. A forma como a comunicação social, os analistas e o cidadão comum vêm analisando o processo Casa Pia tem sido um bom exemplo. A telenovela que se gerou à volta do ex-seleccionador nacional Carlos Queirós é outro bom exemplo: há quem o idolatre e quem o considere um mau produto de marketing. Gostamos do bota acima e do bota abaixo, não há espaço para meios-termos. Toda a gente tem uma opinião sólida sobre os assuntos que, depois de emitida, se torna uma verdade indiscutível. São tantos os exemplos que precisaria de muitas folhas para os descrever.

    Com os políticos passa-se geralmente o mesmo: é assim com o TGV, é assim com o projecto do Aeroporto, é assim com a proposta de alteração da Constituição, é assim com o novo acordo ortográfico, vai ser assim com o próximo Orçamento.

    Será congénito?

  • Tragédia Grega

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    Agora que a rentrée está feita e que a malta veio toda com lindos bronzeados, preparemo-nos para a festa propriamente dita: não se sabe quem é o árbitro, mas sabe-se que há várias equipas em aquecimento; não se sabe que jogadores vão subir ao relvado, mas sabe-se que quase todos estão mortinhos por mostrar as suas habilidades; não se sabe se a entrada é livre, mas sabe-se que vai haver bordoada e que ninguém se vai respeitar; não se sabe qual é o resultado, mas sabe-se que haverá golos em fora-de-jogo.

    Ver-se-ão luzes, fitas e balões, ouvir-se-á música, muita música.

    Tragédia grega com os malucos do riso a aplaudir!

  • Será do calor?

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    Por onde passo vejo coisas quase irreais, por onde folheio dou com acontecimentos que não fazem lembrar o diabo! Que os dias têm andado quentes já eu sei... Será que é o calor que me põe a vista embaçada?

    Sábado, fui para a praia do Guincho. A temperatura estava convidativa, o vento nem tanto; recostei-me a ler na toalha de praia tendo como música as ondas do mar, e como imagem de fundo o céu azul. Agarro num jornal e ponho-me a ler... Não é possível, praguejo, quase não acredito no que os meus olhos lêem! A novidade vem dos Estados Unidos e tem a ver com a moda dos adolescentes americanos injectarem Botox. Para combater as rugas e suavizar os sorrisos (sic), acredite quem quiser! Viro a página e continuo a ler: lixo em barda, mas desta vez não é nas cidades, nem nos mares, nem nos rios, é no espaço, onde satélites e naves vomitam detritos!

    Coincidência das coincidências, um barulho ensurdecedor cai sobre a praia. Olho, vejo um cobói numa ruidosa aeronave a fazer malabarismos e a dar “espectáculo”, despejando decibéis mesmo por cima da praia. Toda a gente olha supreendida: ele era picanços, ele era mergulhos, ele era mortais, só faltava uma bandeira a dizer “eu sou o maior”. Afinal de contas, não é qualquer um que consegue pôr milhares de narizes a apontar para o céu! A certa altura tive mesmo a sensação que o cobói acabaria por se despenhar sobre a água (ou sobre nós!). Não foi desta ainda!

    Puxo de uma revista, viro-me de barriga para baixo, e abro à sorte. Leio: Guia Moderno Para Vender-se Bem. Dou uma vista de olhos, despacho a revista para o saco dos já lidos, e puxo de outro jornal... Deparo com a caça aos ciganos engendrada por Sarkozy; folheio novamente, dou com o desastre natural no Paquistão!

    Volto a praguejar, sinto o sol a queimar-me a pele e as notícias os neurónios. Visto-me, ponho-me em cima da mota e vou almoçar!

  • Fogo à peça

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    Agora que já gozei uns dias de férias (poucos), que já atravessei uma parte do país a arder, agora que já voltei a ligar o televisor para voltar a ouvir falar nos mexericos políticos, ou nos casos que a nossa (in)justiça vem tratando desde há não sei quantos anos, ou no aumento do desemprego, ou no rastilho que paira sobre alguns países europeus com Portugal à cabeça, agora que já voltei a ouvir falar da crise política, de outras crises como a da indústria, da agricultura, da saúde, da educação, da cultura, da segurança social, do trabalho, do crédito, do liberalismo, do Euro, da Bolsa, do clima, do petróleo, dos cereais, do café, do Irão, da Coreia do Norte, do Afeganistão, da globalização, das políticas de esquerda, de centro, de direita, de extrema-direita, e de todas as outras crises de que já ouvi falar certamente mas que de momento não me recordo, dou conta de que ainda estou vivo e que tenho de trabalhar.

    E agora, fogo à peça, antes que a crise tome conta de mim!

  • Férias

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    Cruzo-me com vizinhos, com conhecidos, com gente que vejo na rua ou que vejo no Holmes, e as perguntas que me fazem são sempre as mesmas: Já foste de férias? Não?!, E quando é que vais?

    Vejo-lhes no rosto o cansaço, a ansiedade, a vontade de atirar com os problemas para trás das costas e desopilar! Férias, férias, só se fala de férias... Há quem apanhe um avião e procure outros ares, quem viaje cá dentro, quem vá acampar, quem ponha a mochila às costas e peça boleia, quem vá de mota, quem esteja à espera do Andanças ou simplesmente quem fique em casa a preguiçar...

    Por esta altura, recordo-me sempre das esplêndidas férias que já passei em várias partes do mundo, e não deixo de sorrir com as situações surpreendentes e bizarras que já me aconteceram: como a de estar num restaurante na cidade do México, com música ao vivo, e ser puxado por uma bailarina para dançar sapateado; como a de estar em São Paulo e apanhar com uma greve que me fez regressar ao hotel, dar com o Presidente Sarney no elevador, e assistir meia-hora depois a uma manifestação de milhares de pessoas na rua, com o rosto tapado para não serem reconhecidas; como a de ir para Praga e ver o Rio Moldava trepar pela cidade acima – de tal forma, que as autoridades aconselharam os turistas a apanhar o avião e a regressar aos seus países de origem; como a de andar de bicicleta em Amesterdão durante dias e dias, no meio de dezenas de milhar de outras, por entre canais, museus e belíssimos edifícios; como a de ir para Varadero em Fevereiro e apanhar o pior tempo dos últimos trinta anos, sem que tal facto me estragasse as férias; como a de chegar a Marraquexe à noite e ir directo para a Praça Jamal El Fna – praça apinhada de gente, de animais, de serpentes, de sons inenarráveis, debaixo de um céu alaranjado –, e ficar verdadeiramente extasiado, até conseguir sentar-me e comer uma tagine berbere!

    É tempo de esquecer a crise e carregar as baterias... Quem puder, é claro!

    Boas férias!

  • Tragédia na praia.

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    Um casalinho e um cão. Ele, estudante de medicina, ela, a cursar jornalismo. Ninguém os viu o tempo todo. Um desportista que todos os dias corre uma hora na praia observou-os a jogarem ao disco. «Atiravam-no um ao outro mas nem sempre o agarravam. O cão, um lobo de Alsácia ainda pequeno, apanhava-o e fugia, obrigando-os a irem atrás dele. Foi tudo quanto vi», disse, quando a polícia o interrogou. Uma senhora reformada com rugas muito vincadas afirmou que os vira deitados na toalha «tão agarradinhos que fiquei na dúvida se não estariam a...», e pôs as mãos à boca, como se se estivesse a impedir de dizer o que lhe ia na cabeça. «Foi ela que mergulhou primeiro, a corrente começou a puxá-la... e ela começou a gritar, a gritar, a gritar... Ele atirou-se à água mas foi logo arrastado... Não havia ninguém para ajudar, era eu a gritar de um lado e o cão a ladrar do outro», disse, para logo a seguir mostrar ao funcionário da Protecção Civil e à polícia o local onde se encontravam as roupas e os sacos dos jovens.

    O mar ainda rugia quando apareceu uma lancha com uma equipa de mergulhadores. O cão já não ladrava, gania. Por volta das vinte horas, já o crepúsculo se começara a instalar, apareceu o corpo da rapariga. Uma multidão rodeou a infeliz. A reformada, especada no local, repetia pela enésima vez tudo o que vira.

    A equipa de mergulhadores voltou ao local no dia seguinte mas sem qualquer resultado. Três dias depois, a uma distância considerável da praia onde tudo aconteceu, os pescadores deram com o corpo do estudante a boiar.


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