Autobiografia possível

No dia em que me cortaram o cordão umbilical, lembro-me bem, berrei tanto que pus a Maternidade Alfredo da Costa em alvoroço. Puseram-me na rua nesse mesmo dia, fazia um frio dos diabos. Comecei logo a mamar, gostei tanto que era de manhã à noite, não fui na conversa da chucha. Aos dez meses empinei...

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O fulanão

O fulanão, do tamanho de uma casa de dois andares, e com uma barba que lhe chegava ao peito, levantou-me pelos fundilhos das calças e gritou-me dizendo que eu escrevia pior do que o mais retardado dos orangotangos. Chamou-me aprendiz de escrivão, doido varrido, safado e libertino, filho de uma égua ...

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O nada

Acontece-me escrever quando me distraio ou quando me foge o sono. À luz de uma vela e vendo a madrugada a passar. Quando a sopa está quente também escrevo, assopro e as letras caem no papel. Não sei bem porque escrevo, mas há doidices piores. Na escuridão do meu quarto penso, desarrumo o passado e d...

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Circuncisão (3ª parte)

A senhora enfermeira está a magoar-me!, reclamou Josué, com os olhos postos no lagartinho que tão maltratado fora. Ora, ora, não acha que está a ser um pouco mariquinhas?, retorquiu a mulher com malícia.Quinze minutos depois saiu do hospital, largando impropérios e dizendo para si mesmo que aquela e...

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Circuncisão, 2ª parte

Circuncisão (2ª parte) Uma picadinha nos testículos, disse o médico, do outro lado da cortina. Uma picadela dolorosa queres tu dizer, pensou Josué. Largou um ai na anestesia, um ai sonoro. Voltaram a tapá-lo, mas dez minutos depois sentiu uma das enfermeiras destapar-lhe as vergonhas. Uma espécie d...

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Circuncisão

Sentiu os cabelos eriçarem-se e uma sensação de frio na espinha quando o médico lhe disse que tinha de ser operado. Nunca, never, jamais, nie, pensou Josué, era o que faltava colocar o salpicão nas mãos daquele sujeitinho de bata branca ou naqueles outros de bata azul. É certo que o mangalhito estav...

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As três Luas

Existem três Luas, sabes isso tão bem como eu. Em tempos imemoriais, quando era eu falcão e tu sereia com asas, fizeste uma malandrice daquelas! Lembras-te? Vá lá, não digas que não… Recordo-me tão bem, eu estava empoleirado num cedro quando te vi subir e depois bailar descalça em cima de uma árvor...

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Mas ela existe

Mas ela existe. Vizinhos, colegas, conhecidos e desconhecidos, amigos e amigos dos amigos, toda a gente quer saber onde pára a onça que com duas simples mordidas se apossou dos meus braços. Eu acho que também tu, confessa lá, queres saber. Como não posso pintá-la – faltam-me as mãos e os pincéis -,...

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Uma história real

Ao colocar a chave na fechadura pareceu-me ouvir um barulho estranho dentro de casa. Algum vizinho, pensei, muito embora ainda mal se vislumbrassem os alvores da madrugada. Inseri a chave, fiz girar a lingueta e entrei, mas ao fechar a porta senti uma corrente de ar estranha. Alguma janela aberta, c...

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Aqui há onça

Quando vejo a onça fico suado e com uma sede danada. Como se tivesse acabado de atravessar um deserto. Como se não bebesse água há um ano. Que gelo é este que me esfria o sangue? De onde virá esta infinita e inexplicável aflição?  Ontem olhei sorrateiramente e vi-lhe as garras pintadas de roxo, tiv...

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Doía-me a mão

Não escrevia uma linha há largas semanas. Doía-me a mão. Ontem, ao agarrar na caneta dei conta que em pouco espaço se esconde uma onça. Das que predam bezerros e até cavalos. Mordidas de onça deixam marca, deixam pois. Do deserto das minhas memórias limparia algumas, reporia outras, deixaria cair al...

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Banha da cobra

O que é que a banha da cobra tem? Deitei-me com a barriga cheia de jaquinzinhos fritos e cervejas geladinhas e deu no que deu, uma noite agitada, sonhos atrás de sonhos e um pesadelo estranhíssimo. Devo ter ressonado como um rinoceronte!  Vou contar-te: sonhei que o meu trisavô, que foi coveiro no...

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