O Eterno Espanto

O Eterno Espanto
– Conta-me uma história avô… daquelas que metem medo – pediu a Rita desviando a franja dos olhos verdes.
O avô, que nesse ano fazia oitenta primaveras, cofiou as barbas de prata que lhe chegavam ao peito, ajeitou o boné e começou a contar:
– Conta-se que há muitos anos, um homenzarrão de cabeça rapada e voz de trovão, muito poderoso na região, decidiu tornar-se mais poderoso ainda, conquistando as propriedades que ficavam a Norte e a Sul da sua. Conta-se que os seus olhos brilhavam e que as mãos estremeciam de ambição na ânsia de tudo conquistar. Mandou construir o maior palácio do mundo e encheu-o de valiosos tesouros: baús de ouro e de prata, esmeraldas e diamantes, espadas com joias incrustadas. Mandou construir um anfiteatro onde promovia lutas entre gladiadores e animais selvagens. Esse homem cruel criou ao longo dos anos um exército que invadia campos agrícolas, incendiava cidades, escravizava populações.
– Que medo avô! – disse a neta, mordendo os lábios e franzindo a testa.
– Descrevia-se a si mesmo como o terror dos terrores, matar era para ele a mais básica lei da natureza.
– E como se chamava o país em que ele vivia?
– Em que ele vivia e mandava. Chamava-se Valetudo – respondeu o avô fazendo uma festa à menina. E continuou dizendo:
– Conquistar, caçar, pescar, comer e dormir, era assim que ele e a sua tribo preenchiam a vida. Saíam frequentemente a cavalo e com muitos galgos para caçar.
– O que são galgos avô?
O velho explicou à neta e prosseguiu a história dizendo que o déspota, que era grande das unhas aos dentes, gostava de disparar para animais de grande porte.
– E o que são animais de grande porte? – perguntou a garota intrigada.
– Elefantes, leões, leopardos, rinocerontes… O malvado ria-se de prazer quando os abatia. Os animais foram desaparecendo pouco a pouco das florestas daquela região. Mas como o seu maior prazer era matar, continuou a disparar para tudo o que mexia: lebres, coelhos, patos, cisnes, pavões e tantos outros bichos que, coitados, levavam com chumbo a torto e a direito. O demónio do homem gostava também de fazer queimadas em matos, pastagens e florestas, dando cabo da fauna e da flora.
– O que é a fauna e a flora?
O avozinho explicou o que eram e a importância que tinham, e aproveitou até para lhe falar no papel imprescindível das plantas e dos insectos na biodiversidade.
– É a roda da vida a girar… Mas voltando à história que te estava a contar, os habitantes viviam assustados, afastavam-se quando viam o bárbaro e a sua corja, ninguém se atrevia a dizer o que quer que fosse. Muita gente fugiu daquele país e foi viver para outro. Naquele tempo, porém, havia bárbaros em muitas outras regiões. Mas agora vou falar-te de um dos seus principais defeitos: a gula. Com os anos ficou com um estômago do tamanho de uma montanha.
– Do tamanho de uma montanha, avô?
– De uma montanha das grandes. Era capaz de comer um leitão sozinho numa refeição. Tudo agradava à sua pança: rãs e sapos, cobras e lagartos, cágados e tartarugas, toupeiras e crocodilos… Deitava-se e roncava como um rinoceronte.
– Os rinocerontes roncam?
– Nem queiras saber, é de fugir e não olhar para trás! – disse o velho sorrindo.
E continuou a história dizendo que a natureza começara a ficar doente: água dos rios contaminada, chuvas ácidas, solos poluídos, alterações climáticas profundas… Numa noite de insónias, o homenzarrão pôs-se a passear pelo palácio e ouviu uma voz estranha dizendo: «Porque tens tanto ódio no coração?»
– O homenzarrão, que primeiro olhou para todos os lados e não viu ninguém, exigiu saber quem falava. Como resposta ouviu um morcego perguntar-lhe chiando: «Porque destróis a natureza?» O mamífero apresentou-se como porta-voz de todos os animais da floresta, e a seguir pediu-lhe humildemente que deixasse de maltratar o reino animal e a natureza. Ao ver o malandro puxar de uma arma fugiu, salvando-se por um triz.
– E depois avô, o que é que aconteceu?
O velho voltou a fazer uma longa festa nas suas barbas de prata e continuou:
– O homenzarrão deu ordens para que fossem caçados todos os morcegos que houvesse no reino, e ele próprio comia-os chupando os dedos de satisfação. Os morcegos foram desaparecendo, e com eles muitos outros animais que já estavam ameaçados. A situação foi piorando, as árvores começaram a perder as folhas em plena Primavera, as flores do campo murcharam, os pássaros e as borboletas desapareceram, as estrelas no céu deixaram de brilhar, a vida tornou-se insuportável.
A certa altura surgiu uma doença muito esquisita, as pessoas começaram a ouvir vozes estranhas, vozes que vinham da terra, que vinham das nuvens, do vento, das montanhas, dos desertos, dos mares, dos rios, dos vulcões, vozes que vinham do inferno. O homenzarrão, que continuou a fazer das suas, um dia acordou sem saber quem era e acabou por morrer umas semanas depois só com pele e osso.
– Que história assustadora! – disse a Rita agarrando-se ao avô.
– Soube-se depois que era um vírus mau, um vírus que se foi espalhando por todo o mundo.
– O que é um vírus avô?
Depois de lhe explicar de uma forma simples, o avô continuou:
– Toda a gente ficou em casa com o medo às costas, os carros dormiam nas avenidas, os comboios nas estações, os aviões nos aeroportos, as cidades calaram-se durante semanas, meses, foi como se o mundo tivesse parado à espera que alguma coisa importante acontecesse!
– E o que aconteceu depois?
– Foram meses sem abraços nem abracinhos, mais tristes do que a própria tristeza, mas a natureza que quase tudo perdoa começou a recompor-se… O céu voltou a pintar-se de azul, os jardins de verde, as plantas de flores, os pardais e os melros voltaram a rir-se alegremente, os pirilampos voltaram a aparecer e a luzir, as abelhas a trabalhar em prol de todos nós, e os meninos como tu a brincar.
– Ainda existem homens iguais ao homenzarrão?
– Essa é uma história que não cabe nesta – respondeu o avô, voltando o rosto para esconder uma lágrima.

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