A Montanha Mágica (Thomas Mann)

A Montanha Mágica (Thomas Mann)

Dá vontade de dizer que se A Montanha Mágica de Thomas Mann não existisse a Literatura não seria aquilo que é. Mann criou personagens com tamanha consistência, que passei a vê-las como se de pessoas se tratassem: Hans Castorp (A Montanha Mágica), Gustav von Aschenbach (Morte em Veneza) ou Adrian Leverkühn (Doutor Fausto). A Montanha Mágica é, inquestionavelmente, uma das melhores obras literárias de sempre.

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Excertos


Da pia batismal e dos dois aspectos do avô Hans Castorp conservava apenas pálidas recordações da casa paterna. Mal chegara a
conhecer o pai e a mãe. Morreram ambos no curto intervalo entre o seu quinto e sétimo ano de vida. Primeiro faleceu a mãe, de forma absolutamente inesperada, em vésperas de um parto, por causa de uma obstrução de vasos sanguíneos, consequência de uma neurite; segundo o diagnóstico do Dr. Heidekind, foi uma embolia que paralisou instantaneamente o coração: a mãe acabava de rir-se, sentada na cama, e parecia cair para trás de tanto riso, mas na realidade isso se deu porque morrera. O pai, Hans Hermann Castorp, era incapaz de compreender essas coisas; visto ter tido grande apego à esposa e não ser ele próprio de compleição muito robusta, não pôde conformar-se com o golpe. Seu espírito, desde aquele dia, tornou-se confuso e apoucado. Presa de uma espécie de torpor, cometeu uma série de erros nos negócios, de maneira que a firma Castorp & Filho sofreu prejuízos sensíveis. Na segunda primavera depois da morte da mulher, contraiu uma pneumonia durante uma inspeção dos depósitos do porto varrido pela ventania, e como o coração fatigado não resistiu à febre alta, faleceu ao cabo de cinco dias, não obstante todos os cuidados do Dr. Heidekind. Acompanhado de numeroso cortejo de concidadãos, foi unir-se à esposa no jazigo dos Castorps, muito bem situado no cemitério de Santa Catarina, com vista para o jardim Botânico.
O avô paterno, o senador, sobreviveu apenas pouco tempo ao pai; morreu também de uma pneumonia, porém depois de muita luta e longo sofrimento, pois, ao contrário de seu filho, era Hans Lorenz Castorp uma personalidade que dificilmente se deixava abater, e se arraigava
com grande tenacidade na vida. Durante o breve período entre aqueles outros dois falecimentos – não ultrapassou um ano e meio – morava o órfão Hans Castorp na casa do avô, mansão ao gosto do Classicismo nórdico, edificada em princípios do século passado, sobre um terreno estreito, à Rua da Esplanada. Era pintada numa cor que lembrava um céu nublado. No meio do andar térreo, cinco degraus acima do chão, achava-se o portão de entrada, flanqueado por meias colunas. Existiam ainda dois pavimentos superiores, além do primeiro cujas janelas desciam até o chão e estavam defendidas por grades de ferro fundido.
Ali havia apenas as salas de recepção, inclusive a de jantar, clara, decorada com estuque e cujas três janelas guarnecidas de cortinas escarlates davam para o pequeno quintal. Era nesse aposento que, durante os referidos dezoito meses, o avô e o neto almoçavam todos os dias às quatro horas, servidos pelo velho Fiete, que trazia brincos nas orelhas, botões de prata na casaca e uma gravata de cambraia igual àquela do patrão, do qual também imitava o hábito de esconder na laçada o queixo escanhoado. O avô tratava-o por “tu” e falava com ele em dialeto baixoalemão, não para pilheriar, pois que não tinham nenhum senso de humor, mas com toda a seriedade, e porque sempre o fazia no contato com gente do povo – estivadores, carteiros, carroceiros e criados. Hans Castorp escutava-o com gosto, e com o mesmo prazer escutava as respostas que dava Fiete, igualmente em baixo-alemão, quando servia o dono da casa e se curvava para falar-lhe junto à orelha direita, com a qual o senador ouvia muito melhor do que com a outra. O ancião compreendia, fazia que sim e continuava comendo, muito ereto entre a mesa e o alto espaldar da poltrona de acaju, e quase que sem se inclinar para o prato. O neto, sentado à sua frente, contemplava em silêncio, com atenção inconsciente e profunda, os gestos precisos e bem cuidados, mediante os quais as belas mãos alvas, magras e idosas do avô, com as unhas convexas, aparadas em ponta, e com o anel sinete de pedra verde no indicador direito, arranjavam na ponta do garfo um bocado de carne, legumes e batatas, e os conduziam à boca, enquanto a cabeça, levemente, ia a seu encontro. Hans Castorp olhava então suas próprias mãos, ainda desajeitadas, e sentia que nelas se preparava a capacidade de manejar mais tarde a faca e o garfo com a mesma perfeição do avô.

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