A Valsa do Adeus (Milan Kundera)

A Valsa do Adeus (Milan Kundera)

Porquê o título «A Valsa do Adeus»? Porque Kundera faz-nos dançar com sete personagens e com as suas contradições, porque enche o livro com coisas que oscilam entre o belo e o feio, porque nos faz reflectir com tremenda sabedoria e mestria sobre o bom e o mau. A uma certa altura Kundera diz: «O desejo de ordem é ao mesmo tempo um desejo de morte, porque a vida é uma perpétua violação da ordem». Um livro fabuloso de um autor que há muito tempo deveria ter sido laureado com o Nobel da Literatura.

Excertos

Excerto

Durante a conversa telefónica com Ruzena, Klima lembrou-se de que esperava esta terrível notícia havia muito tempo. Claro que não tinha nenhum motivo razoável para pensar que fecundara Ruzena na noite fatal (pelo contrário, tinha a certeza de estar sendo acusado injustamente), mas aguardava uma notícia deste género havia muitos anos, e muito antes de conhecer Ruzena.
Tinha vinte e um anos quando uma loira que se apaixonara por ele teve a ideia de simular uma gravidez para obrigá-lo a casar. Foram semanas cruéis, que lhe causaram espasmos no estômago, e no final ele caiu doente. A partir daí soube que a gravidez é um golpe que pode surgir de qualquer lugar e a qualquer momento, um golpe contra o qual não há para-raios e que se anuncia numa voz patética pelo telefone (sim, também daquela vez a loira lhe dera a funesta notícia por telefone). O incidente dos seus vinte e um anos fez com que depois ele sempre se aproximasse das mulheres com um sentimento de angústia (com bastante zelo, no entanto) e que depois de cada encontro de amor temesse sinistras consequências. Tentava convencer-se, à força do raciocínio, que, com a sua prudência doentia, a probabilidade de um tal desastre mal chegava a um milésimo por cento, mas até mesmo esse milésimo conseguia assustá-lo.
Uma vez, tentado por uma noite livre, telefonou para uma moça que não encontrava havia dois meses. Quando ela reconheceu sua voz, exclamou:
— Meu Deus, é você! Estava esperando o seu telefonema com tanta impaciência! Precisava tanto que você me telefonasse!
E ela dizia isso com tal insistência, com tal sofrimento, que a angústia já conhecida apertava o coração de Klima e ele sentia, com todo o seu ser, que o instante temido tinha chegado. Como ele queria, o mais rapidamente possível, encarar a verdade, tomou a ofensiva:
— E porque me diz isso num tom tão trágico?
— A minha mãe morreu ontem — respondeu a rapariga, deixando-o aliviado, mesmo sabendo que, de qualquer maneira, um dia não conseguiria escapar da desgraça.

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