Ricos e poderosos

Tenho um amigo que lhes tem um odiozinho de estimação, este post serve para lhe provar, sem sofismas e sem argumentos supérfluos, que é graças a eles que nos safamos. Os que conheço, e são uns quantos, têm qualidades de sobra: esperteza, ambição, iniciativa, desembaraço, belas ideias.
O Chagas, por exemplo, trabalha dia e noite com paixão, mal descansa o coitado, nada de dinheiro mal gasto, nada de sonegar impostos, nada de festas, nada de copos (só em negócios), nada de férias, nada lhe escapa para não ser ultrapassado por um novo rico qualquer; o Nobre, de olhos grandes e olhar bondoso, um pouco tímido até, de finas piadas (embora nem sempre se entendam), mais rico do que aqueles que se dizem ricos, ama a pátria e tudo aquilo que ela lhe pode dar; um outro, casado com uma bela de uma mulher, de gestos finos e roupas caras, divertidíssima por sinal, mas que me recuso dizer quem é, graciosa como uma borboleta, leve como uma pena (dancei com ela três vezes num baile de angariação de fundos), sempre muito perfumada, quase me apaixonei, ia levando um arraial de facho, tal e qual a canção do Rui Veloso. Numa palavra, um mouro de trabalho e de sacrifícios, nada manhoso, manda na nossa terra como se fosse só sua; o poderoso Bonifácio, dá emprego a mais de dez mil alminhas, linhagem de anjo com crédito em todos os bancos, admiro-lhe a coragem, a retórica (embora a gramática não seja a melhor), o faro, o instinto, o tacto, a visão, só lhe falta ter asas para voar como os pássaros; aquele outro, esquece-me o nome, tão bom de coração que deu tudo aos pobres, tornando-se num deles, se dúvidas houvesse quanto à natureza dos ricos, e não as há certamente, seria a prova incontornável da caridade dos ricos; aquele outro também, que me pediu para não referir o apelido, nasceu pobre e fez-se rico, onde toca tudo resplandece, grande aura, grande engenho, grandes empresas, grandes propriedades, montes, campos, searas, fazendo lembrar uma anaconda das grandes, grandes como as limusinas, os iates, os aviões, um espanto, se fosse na América – na de cima ou na de baixo – seria presidente certamente.
E como estes existem outros, Narcisos e Narcisas, homens e mulheres sem medo, abençoados pela natureza, pelos deuses, pelos santos, pelos anjos, por tropas que não preciso de mencionar.
Basta dizer-te amigo José (se tiveres paciência para ler este meu post), que os ladrões vão para onde há ricos e poderosos como as moscas para o mel! Tenho a esperança por isso, e para sossego de todos nós, que não te embriagues com pensamentos maus, que percebas porque é que os ricos são ricos, tal como os baixos são baixos, os gordos são gordos e os tolos são tolos.

P.S. – Ai de mim, que é desta vez que levo um arraial de facho.

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