O que aprendi depois de escrever quatro romances
Ter uma história na cabeça e escrever um romance são coisas completamente diferentes. Ter uma história é, provavelmente, ter um tema, um cenário, uma ideia, apenas pontos de partida. Por outras palavras, ter uma história é ter um monte de tijolos, vigas, cimento e uma planta. Escrever o romance é construir a casa e dar abrigo a uma família. Maior ou menor. É lá dentro que as personagens começam a fazer o que lhes apetece.
Quando escrevi o meu primeiro romance - Marcas de Amor - não sabia bem para onde ia, sentia apenas uma necessidade de atirar para fora uma série de coisas. Coisas que teriam de sair. Mas a história que temos na cabeça não é a mesma que escrevemos. As personagens que fui criando foram-me fazendo partidas. Ora iam para onde eu não tinha previsto, ora faziam coisas com as quais não contava. Algumas recusam-se a morrer; outras tornam-se mais importantes do que o autor imagina. O fim do meu primeiro romance, algo dramático, fez-me rolar umas quantas lágrimas. A certa altura ri-me da figura que estava a fazer.
Um leitor disse-me que pouco ou nada havia em comum nos meus 4 romances. Recebi o comentário como um elogio. Na realidade, as histórias têm temas e divagações muito diferentes. Talvez haja um fio condutor comum: como começo, onde me perco, como bato com a cabeça nas paredes, como saio dos labirintos, como me sinto abandonado quando os romances chegam ao fim e as personagens se começam a afastar.
O primeiro romance ensinou-me a dar os primeiros passos, fui caindo e levantando, fazendo lembrar um bebé quando começa a andar. No segundo romance - Caídos da Mesma Árvore - aprendi a estruturar e a criar nos leitores a vontade de não largar o livro. O romance chegou a estar com um pé no cinema. As restrições impostas durante a crise da Troika acabaram por fazer abortar o projecto. No terceiro romance - A Valsa dos Pecados - aprendi a cortar, a usar três palavras em vez de seis, dói mas tem de ser. No quarto romance - Marés de Paixão - aprendi a melhorar as metáforas.
Cada livro resolve um problema diferente, e nenhum me preparou totalmente para o seguinte. Talvez seja isso que me faça continuar. Voltando às personagens, bem ou mal convivem comigo. Cheguei a chamar Marta a uma amiga e Rui a um colega, tal a forma como me embrenhei com eles. No auge da escrita dos meus romances, os meus disparates aumentam: ora saio de casa com um pólo do avesso, ora envio uma mensagem para o destinatário errado, ora ponho a roupa a lavar sem detergente. Também perco as chaves de casa. E até as do carro!
Se alguém me perguntasse o que aprendi depois de quatro romances, diria: aprendi a reconhecer o buraco. Não se aprende a evitá-lo. E completaria: deste vírus já não me livro.
#CarlosPorfírio #Romances #LIteratura
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