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    É alta e vistosa e tem uma cabeleira de se lhe tirar o chapéu: grande, de cabelos castanhos encaracolados que vão baloiçando graciosamente pelas costas abaixo. Chama-se Cesaltina. Perde-se o tempo que a conheço e que é minha amiga. Encontrei-a há dias, fez-me uma grande festa quando me viu, apenas interrompida por alguns espirros. «São as alergias, Carlos, chegam-me na Primavera e só se vão embora no final do Verão», disse-me, com ar de quem nunca se conformará. «Sou alérgica aos ácaros, ao pólen, ao pó da casa, ao pêlo do gato, aos morangos, ao chocolate, aos lacticínios...»

    Bebemos um café, tempo para ela desembuchar e falar de outras alergias. Não gosta de touradas políticas nem de discursos circulares, ficou com urticária, garante, quando soube que o Presidente da República não participou nas cerimónias fúnebres de José Saramago. Voltou a falar-me do Memorial do Convento que leu cinco vezes, voltou a falar-me do Ensaio da Cegueira e da cegueira dos que vendo tudo pouco ou nada enxergam. Tapa os ouvidos quando ouve as vuvuzelas, espirra e assoa-se com os comentários acerca das sete virtudes da Selecção Nacional, virtudes despontadas uns minutos depois de acabar o jogo que Portugal venceu por 7-0 à Coreia do Norte; sente uma estranha coceira quando se lembra da vontade de alguns países em reatar a caça às baleias, ou quando ouve dizer que Portugal vai permitir a comercialização de alimentos geneticamente modificados. Lacrimeja, coça-se, espirra, incomoda vê-la tão aflita. 

    Passa-lhe a coceira quando se põe a cantarolar um dos muitos refrões que conhece, que podem ir de um qualquer vira-virou a uma música moderna. Passa-lhe a coceira quando vaidosamente fala nos sobrinhos. Passa-lhe a coceira quando se ri alegremente ou quando se põe a contar insólitas histórias. É assim a Cesaltina.


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